Arquivo

Archive for outubro \31\UTC 2010

Dia Mundial Vegano – 01 de novembro

No dia 01 de novembro comemoramos o Dia Mundial Vegano (“World Vegan Day”, em inglês). Ele é comemorado desde 1994, quando a Vegan Society da Inglaterra comemorou seus 50 anos de criação.

O VEGANISMO foi criado em 1944, numa reunião organizada por Donald Watson (1910 – 2005) e mais cinco dissidentes da The Vegetarian Society. Na ocasião criaram uma nova sociedade (The Vegan Society) e adotaram o novo termo “vegan” (pronuncia-se vígan) para definir a si próprios.

A Ideologia Vegana:

Veganismo é uma ideologia baseada nos direitos animais que obviamente pressupõe uma alimentação estritamente vegetariana. A ideologia vegana boicota qualquer produto de origem animal (alimentar ou não), além de produtos que tenham sido testados em animais ou que incluam qualquer forma possível de exploração animal nos seus ingredientes ou processos de manufatura.
Para o vegano cada animal é um ser senciente dono de sua própria vida, tendo assim o direito de não ser tratado como propriedade (enfeite, entretenimento, comida, cobaia, mercadoria, etc).
No vestuário, os materiais de origem animal como pele,couro, lã, seda, camurça ou adornos de pérolas, plumas, penas, ossos, pêlos, marfim, etc) são preteridos, pois implicam a morte e/ou exploração dos animais que lhes deram origem. Veganos se vestem de tecidos de origem vegetal (algodão, linho, etc) ou sintéticos (poliéster, etc).
Na alimentação são vegetarianos estritos, ou seja, excluem da sua dieta carnes, gelatina, laticínios, ovos, mel e demais alimentos de origem animal. Consomem basicamente cereais, frutas, legumes, vegetais, hortaliças, algas, cogumelos e qualquer produto, industrializado ou não, desde que não contenha nenhum ingrediente de origem animal.
Evitam o uso de medicamentos, cosméticos e produtos de higiene e limpeza que tenham sido testados em animais. Alguns optam pela fitoterapia, homeopatia ou qualquer tratamento alternativo.
Veganos defendem o surgimento de alternativas para experiências laboratoriais, como testes in vitro, cultura de tecidos e modelos computacionais.
São divulgadas entre a comunidade vegana listas de marcas e empresas de cosméticos e produtos de limpeza e higiene pessoal não testados em animais.
Circos com animais, rodeios, vaquejadas, touradas e jardins zoológicos, também são boicotados pois implicam escravidão, posse, deslocamento do animal de seu habitat natural, privação de seus costumes e comunidades, adestramento forçoso e sofrimento. Não caçam, não promovem nenhum tipo de pesca, e boicotam qualquer “esporte” que envolva animais não-humanos. Muitos seguem o princípio político da não-violência.

Veganismo na Prática

Citando o filósofo Carlos Naconecy “Vegetarianismo/veganismo é menos uma questão de pureza pessoal do que uma atitude que tenta minimizar a exploração de animais – minimizar porque a eliminação dessa exploração é impossível: a vida no mundo urbano de hoje, tal como a conhecemos, depende do uso de animais. Em outras palavras, nenhum de nós pode se dizer vegano – todos nós apenas tentamos ser veganos.”

O exemplo mais claro disso é o do uso de pneus por parte de veganos/abolicionistas. “Consta que o ácido esteárico, oriundo principalmente da gordura animal, é usado, entre outras coisas, na vulcanização da borracha dos pneus. Ao ser informado sobre isso, o militante ver-se-ia obrigado moralmente a se mudar para um local onde o uso de pneus não fosse necessário – por exemplo, uma ecovila autossustentável.”

Veganismo, segundo seu criador Donald Watson, é uma filosofia e um modo de vida que busca excluir as formas de exploração e crueldade aos animais… É uma atitude de respeito pelos animais. Os ativistas devem fazer tudo o que puderem para viver o mais eticamente possível conscientizando as pessoas para a importância da vida de qualquer animal, humano ou não. A idéia é mostrar que todos animais sofrem tanto quanto os homens e que se nenhum homem gosta de sofrer os animais também não.

Microbiologista Pedro Ynterian defende o fechamento de zoológicos

Pedro Ynterian com um dos chimpanzés de seu santuário; microbiologista defende fechamento de zoológicos


Em entrevista concedida a Marcelo Bortoloti da Folha de S.Paulo, o microbiologista cubano naturalizado brasileiro Pedro Ynterian, 71 defende que zoológicos são ruins e deveriam ser fechados. Ele diz que os animais passam por tortura psicológica com visitação pública e que uma criança aprenderia muito mais assistindo a documentários.

Ynterian é empresário, microbiologista e dono de um santuário ecológico em Sorocaba (SP) com 200 animais, entre 50 chimpanzés, nove leões, dois tigres e dois ursos, além de presidente internacional do “Great Ape Project”, que luta pelo bem-estar dos grandes primatas.

Atualmente ele luta pela libertação do chimpanzé Jimmy, do zoológico de Niterói (RJ), cujo habeas corpus será julgado em novembro. Ynterian defende que gorilas, chimpanzés e orangotangos tenham garantias como a de não serem mortos ou enjaulados.

Confira a matéria da Folha:

Folha – Os zoológicos brasileiros deveriam ser fechados?
Pedro Ynterian – Sim. Nenhum zoológico brasileiro é de primeira linha. Se você visitar cada um deles e reparar onde os animais comem e dormem, irá encontrar coisas terríveis. Muitos só são alimentados de noite e passam o dia em espaços exíguos.
A quantidade de mortes é absurda. Só metade está na regularidade, o resto funciona sem autorização do Ibama.

Para onde iriam os animais?
Os zoológicos poderiam virar centros de resgate e cuidado, mas sem visitação. Existe essa necessidade. Eu recebo mensalmente pedidos do Ibama para abrigar animais apreendidos.

A visitação é um problema?
Exibir publicamente uma galinha não é o mesmo que um primata ou um elefante, animais com inteligência superior. Um chimpanzé tem 99,4% do nosso DNA, se relaciona com as pessoas, odeia algumas e ama outras.
É tortura colocá-lo num recinto fechado. Em pouco tempo fica louco. É comum recebermos chimpanzés que se mutilam, arrancam pedaços da perna e dos braços com os dentes.

Os zoológicos são considerados espaços de lazer e educação para as crianças.
Os animais que estão ali não são representantes legítimos da sua espécie. São estressados. A criança pode ver o leão no zoológico, mas o comportamento dele é falso. Acho mais válido assistir a um documentário.

Os zoológicos são como os circos?
Os circos ainda são piores, porque lá os animais são submetidos a castigos físicos. Eu recebo muitos casos de chimpanzés que aprenderam a beber e a fumar em circo. Tenho um urso viciado em Coca-cola que veio de circo. Mas isto também acontece nos zoológicos.
Na Europa havia um chimpanzé que pedia cigarros aceso para o público e fumava dentro da jaula. Tem o caso de um chimpanzé que fugiu do zoológico de Bauru e ficou desaparecido por dois dias. Foi encontrado num boteco, sentado numa mesa com três bêbados tomando cachaça.

O habeas corpus para o macaco Jimmy é uma tentativa de mudar esse quadro?
A iniciativa é de um grupo de advogados e promotores. Há três anos conseguimos decisão favorável para libertar uma chimpanzé em Salvador. Quando fomos buscá-la, tinha morrido.
Com o Jimmy queremos desafiar a Justiça a se pronunciar sobre a criação de uma figura jurídica intermediária para os grandes primatas. Por lei, os animais são considerados objetos e os humanos sujeitos de direito.
Queremos que os grandes primatas tenham direitos básicos como o de não serem enjaulados, mortos e que ninguém possa ter propriedade sobre eles.

Isto já existe em algum lugar do mundo?
Não. Mas o Brasil, pela sua escola de diversidade e respeito à natureza, tem condições de ser o primeiro e dar o exemplo ao mundo. Não se pode esperar isto dos países desenvolvidos.
Os Estados Unidos são o pior país do mundo para os animais. Lá eles não têm direito algum. Os chimpanzés ainda são usados em experiências de laboratório. Existem mais tigres criados em casas nos Estados Unidos do soltos na natureza no mundo todo.
No Brasil nós temos quatro santuários para chimpanzés que são de excelência, e temos condições de mostrar para o mundo o que deve ser feito.

Categorias:ANIMAIS, ATIVISMO, ÉTICA

Ainda sobre mulheres: o absurdo texto de Pondé na Folha S.Paulo

Depois do meu post “A mulher e o lar” que fala de um livro anos 50, coloco agora algo mais atual. Quem achou absurdo os ensinamentos daquele livrinho vai enfartar ao ver o testículo (perdoem-me a brincadeira) do Luiz Felipe Pondé, na folha de S.Paulo (reproduzo abaixo). Pasmem: é de setembro de 2010!!!

Começo pelos comentários (de duas mulheres) sobre o tal texto publicados pela Folha. Vejam:

Mulher

1) O artigo “Restos à janela”, de Luiz Felipe Pondé (Ilustrada, 13/ 9), é um desfile tenebroso de acusações e preconceitos.

Diz que a mulher atual é fácil -“nem um “jantar” é preciso pagar para levá-las à cama”- e quase chama de macacas aquelas que não se depilam -“cuidado ao passar a mão nas pernas delas, porque será como mexer nas suas próprias pernas”.

Pondé traça um retrato do que há de mais retrógrado e conservador na sociedade. O articulista critica as que não priorizam a maternidade e conclui que as feministas são um bando de recalcadas que têm medo de mulheres bonitas e arrumadas. Nada mais clichê.

MAÍRA KUBÍK MANO , jornalista, editora do “Le Monde Diplomatique” no Brasil (São Paulo, SP)

2) Em seu artigo de 13/9, Luiz Felipe Pondé diz que “mergulhadas em exigências, mulheres morrem sós à janela”. Isso tem de virar um “cult”. Estamos mesmo precisando de repertório contra a conversa padronizada.

“All I want is a husband”, como ele cita, é realmente o que tenho constatado na minha clínica de dermatologia, onde já atendi 44 mil pessoas, cerca de 65% delas mulheres.

Não importa a classe, a profissão, a idade… Todas querem a mesma coisa, doa a quem doer.
Só Pondé é “super-homem” para ter coragem de falar… E falar tão lindamente!

LIGIA KOGOS (São Paulo, SP)

Abaixo o texto, para que vocês tirem as próprias conclusões:

Restos à janela

POR LUIZ FELIPE PONDÉ

“Sou um tanto maníaco por detalhes. Às vezes, me pego pensando em Walter Benjamin, o grande pensador judeu alemão que se suicidou durante a Segunda Guerra Mundial, e entendo sua obsessão pelos detalhes do mundo.

A matéria de que é feita a consciência muitas vezes se encontra nos detalhes, principalmente nos restos do mundo, restos ridículos de um mundo em clara agonia. Hoje vou dar um exemplo de como uma migalha do mundo pode ser representativa do nosso ridículo.

O detalhe ridículo de hoje se refere a um novo movimento de conscientização que nasce. Vejamos.

O que haveria de errado em mulheres que querem atrair os homens e por isso se fazem bonitas? Macacas atraem macacos, aves fêmeas atraem aves machos.

Mas parece haver umas pessoas por aí que acham que legal é ser feia. É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.

Quais seriam esses “direitos”? De ser feia? De parecer com homens e disputar o Prestobarba de manhã? Antes, um reparo: “direitos” hoje é uma expressão que serve para tudo. Piolhos terão direitos, rúculas terão direitos, ratos já têm direitos. Temo que apenas os machos brancos heterossexuais não tenham direitos.

Pensou? Machista! Desejou? Machista! Deu um presente? Machista! Se você aceitar ser eunuco, obediente, desdentado e, antes de tudo, temer a fúria das mal-amadas, aí você será superlegal. De repente, elas exigirão uma sociedade onde todos terão seu Prestobarba. Cuidado ao passar a mão nas pernas delas porque será como mexer nas suas próprias pernas.

Estou numa fase preocupado em ajudar o leitor a formar um repertório que escape do blá-blá-blá mais frequente por aí. Por isso, nas últimas semanas, tenho indicado leituras. Proponho hoje a leitura de “Feminist Fantasies” (fantasias feministas), de Phyllis Schlafly, cujo prefácio é assinado por Ann Coulter, a loira antifeminista que irrita a esquerdinha obamista, antes de tudo, porque é linda, com certeza.

Para piorar, Ann Coulter é inteligente e articulada. Mas, em se tratando de mulher, é antes de tudo a inveja pela beleza da outra que move o mundo a sua volta.

Dirão as ideólogas do “eunuco como modelo de homem” que a culpa é nossa (masculina) porque as mulheres querem nos seduzir e, aí, elas se batem na arena da sedução. Mas, se elas não quiserem nos seduzir, qual seria o destino de nossa espécie? Para que elas “serviriam”? Deveriam elas (as que querem ser bonitas para nós homens) ser condenadas porque são normais?

O primeiro artigo deste livro é já uma pérola de provocação: “All I Want Is a Husband” (tudo o que quero é um marido).

Contra a “política do ódio ao macho”, nossa polemista afirma que a maioria das mulheres, sim, quer, antes de tudo, amor e lar.

Quando elas se lançam na busca do amor e sucesso profissional em “quantidades iguais”, mergulham numa escolha infernal (a autora desenvolve a questão nos ensaios seguintes) que marca a desorientação contemporânea. O importante, antes de tudo, é não mentirmos sobre isso e iluminarmos a agonia da vida feminina quando submetida à “política do ódio ao macho”.

A vida amorosa nunca foi feliz. E nunca será. Mas a mentira da “emancipação feminina” é não reconhecer que ela criou novas formas de vida para a mulher em troca de novas formas de agonia.

Diz um amigo meu que, pouco a pouco, as mulheres se tornam obsoletas. Por que não haveria mais razão para investir nelas?

Conversando sobre esses medos com alunos e alunas entre 19 e 21 anos, percebi que muito da “obsolescência da mulher” é consequência de três queixas masculinas básicas: 1. Elas são carreiristas; 2. Não valorizam a maternidade; 3. Não cuidam da vida cotidiana da família. Associando-se a este “tripé”, o fato que elas começam a ganhar bem, nem um “jantar” é preciso pagar para levá-las à cama. Resultado: a facilidade no sexo de hoje é a solidão de amanhã.

Mergulhadas em suas exigências infinitas, morrem à janela, contabilizando as horas, contemplando o próprio reflexo.”

Sobre esse texto, em seu blog, a jornalista Maira K. Mano (do primeiro comentário na Folha) diz:

“Abri a Folha de S. Paulo só no fim do dia hoje, movida pelo comentário de dois amigos que me impeliram a ler a coluna de Luiz Felipe Pondé no caderno Ilustrada. “É um texto absurdo”, disseram.

Pois bem, lá fui eu, averiguar a denúncia. A princípio, achei que era brincadeira. “Não é possível que ele fosse escrever isso, gente! Com certeza vai publicar outro texto dizendo que se trata apenas de uma provocação para pensarmos o quanto o mundo ainda continua machista, estimulando a reflexão!”

“Acho que não”, responderam os amigos. “Ele realmente acredita nisso.”

Bem, se for sério, o artigo é um desfile tenebroso de acusações e preconceitos. De dizer que a mulher atual é fácil – “nem um ‘jantar’ é preciso pagar para levá-las à cama – até quase chamar de macacas aquelas que não se depilam” – “cuidado ao passar a mão nas pernas delas porque será como mexer nas suas próprias pernas” –, Pondé traça um retrato do que há de mais retrógrado e conservador na sociedade. Critica aquelas que não priorizam a maternidade e conclui que as feministas são um bando de recalcadas que têm medo de mulheres bonitas e arrumadas. Nada mais clichê.

Ele só pode estar brincando, né?”

Creio que devemos perguntar a ombudsman da Folha, Suzana Singer, o que aconteceu com o bom senso da redação, que permitiu a veiculação de um texto tão ofensivo e grosseiro.

Categorias:CURIOSIDADES, SOCIEDADE

A mulher e o Lar

Olhando o título, dá calafrios, não?

Well, encontrei um site que menciona o livro Problemas do Lar de Marialice Prestes que o escreveu com a intenção de ensinar as novatas a cuidar do funcionamento de uma casa. São “pérolas” que servem para sabermos o que a sociedade fazia a maioria das mulheres lá por 1950. Vejam:

E tem até um capítulo para mostrar que a mulher daquela época já tinha que tomar sua parte na responsabilidade para um mundo melhor. Vejam como:

Impressionante, não é?

Categorias:Uncategorized

‘A pior forma de desrespeitar uma criatura é coisificá-la como algo comestível’. Entrevista especial com Carlos Naconecy

Em entrevista concedida à IHU On-Line, Carlos Naconecy fala sobre os principais conflitos que o conceito de ética animal vive atualmente e sobre como a bioética pode ser compreendida a partir da relação homem/animal.

“A ética animal tem que conseguir se alçar como um campo de reflexão legítimo, constituir-se dentro e fora da academia”.

Diz “Não há diferenças moralmente relevantes entre, digamos, três tipos de mamíferos, cães, ratos e porcos. Mas, mesmo assim, amamos o primeiro, odiamos o segundo e comemos o terceiro”, explica Naconecy, apontando que isso mostra a segregação preconceituosa que há na diferenciação animal que se pratica.

Carlos Naconecy é filósofo graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez doutorado também em Filosofia pela PUCRS. Foi pesquisador visitante em Ética Animal na Universidade de Cambridge (UK) e hoje é membro do Oxford Centre for Animal Ethics e do corpo editorial do Journal of Animal Ethics. É autor do livro Ética & Animais (Porto Alegre: Edipurs, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos entender o conceito de ética animal?

Carlos Naconecy – A expressão “ética animal” deve ser entendida como uma ética, no sentido de reflexão filosófica, a respeito do tratamento dos animais (não humanos) por parte dos humanos. Nessa acepção, a ética animal se constitui como um dos ramos da Ética Aplicada, área da Filosofia que se debruça sobre as questões concretas que se impõem a nós neste momento da civilização.

IHU On-Line – Quais são os principais conflitos que a ética animal vive hoje?

Carlos Naconecy – Pensando particularmente no contexto brasileiro, eu diria, em primeiro lugar, que a ética animal tem que conseguir se alçar como um campo de reflexão legítimo, constituir-se dentro e fora da academia, ou seja, mostrar que há algo a ser dito e que merece ser ouvido. Isso significa levar os animais moralmente a sério, tomá-los em consideração nas decisões privadas e públicas, enquanto sujeitos, em vez de meros objetos – assim como fazemos com outros seres humanos.

Atualmente, temos “animais de (panela)” ou “animais para (companhia, diversão, experimentação, etc.)”, mas não animais como sujeitos morais, isto é, que demandam nosso respeito. Esse imperativo ainda está muito distante da consciência moral ordinária e cotidiana. Na maior parte das vezes, os argumentos e reflexões em prol dos animais são descartados automaticamente e, quando não o são, o homem médio os classifica como passionais, sentimentalistas, fanáticos, idiossincráticos, etc.

O ponto fundamental é reconhecer a alteridade dos animais, cuja reificação (transformação do animal em coisa), instrumentalização (utilização do animal como meio) ou antropomorfização (transfiguração da alteridade e especificidade animal) devem ser postas à luz de um devido crivo crítico. Em suma, em resposta à sua pergunta, o principal desafio da ética animal atualmente é conquistar seu espaço como área de reflexão moral genuína e relevante, ou seja, alçar seu estatuto filosófico.

IHU On-Line – A zooantropologia é uma prática que já existe no Brasil?

Carlos Naconecy – A zooantropologia se debruça sobre a relação humano-animal, no encontro do animal humano com outro animal não humano, envolvendo conteúdos da antropologia, zoologia, etologia e psicologia. A domesticação e o papel dos pets são alguns dos seus objetos de estudo. Não acompanho de perto a pesquisa nessa área no Brasil, mas imagino que a zooantropologia esteja ainda muito incipiente no nosso país, se não inexistente. O que temos são programas de Zootecnia e Comportamento Animal, e algumas pesquisas com terapia com uso de animais, e é só.

IHU On-Line – O que a bioética pode revelar sobre a relação homem/animal?

Carlos Naconecy – A função das éticas (zoo, bio ou outra qualquer) não é revelar ou descrever as relações, mas, antes, a de avaliar tais relações. Diferentemente do que a etimologia do termo indica, bioética é interpretada usualmente como ética médica, que se situa na relação entre médico e paciente, envolvendo questões como a eutanásia, aborto, suicídio etc. Entretanto, no seu sentido mais próprio, trata-se da ética da relação entre o humano e outros seres vivos. Ora, a categoria do vivo é mais ampla que a categoria do animal. Portanto, as questões de fundo da ética animal se inserem nas reflexões pertinentes ao valor intrínseco da vida e do viver.

IHU On-Line – Veneramos e mimamos alguns animais, enquanto torturamos e destruímos outros. O que isso nos diz sobre a ética do homem?

Carlos Naconecy – Isso nos diz que o pensamento de senso comum é preconceituosamente discriminatório e moralmente inconsistente, com raízes culturais. Por exemplo, não há diferenças moralmente relevantes entre, digamos, três tipos de mamíferos, cães, ratos e porcos. Mas, mesmo assim, amamos o primeiro, odiamos o segundo e comemos o terceiro.
Essa segregação preconceituosa varia entre as diferentes culturas e as diversas sociedades. Esse fato indica o quão arbitrária e inconsistente é a razão moral humana quando se volta à categorização do “outro”, de modo geral, e dos outros membros do reino animalia, em particular.

IHU On-Line – A academia hoje trata da questão da ética animal? De que forma?

Carlos Naconecy – Vou me permitir citar um trecho do livro “Ética & Animais”, que descreve exatamente esse ponto:

“A questão dos animais se apresenta como um problema aberto para a Filosofia. E quem escreve sobre animais numa área tão conservadora quanto a Filosofia corre o risco de parecer ridículo. De fato, falar hoje de uma ética para os animais é ainda visto com certa suspeição e até desprezo pelos acadêmicos. É bem verdade que alguns pensadores se ocuparam isoladamente com esse tema nos séculos anteriores. Também é muito provável que, ao longo da história do pensamento ocidental, vários filósofos deixaram de escrever sobre suas posições teóricas quanto ao status dos animais, a fim de evitar se sujeitarem a tal exposição constrangedora. Isso hoje ainda vale entre nós em certa medida. Felizmente, nossa sociedade hoje está mais preparada para considerar essa ideia. Ao longo dos últimos dois séculos, a atenção social quanto aos limites éticos da conduta humana em relação aos animais se restringiu a uma ética minimalista, que se limitava meramente a proibir a crueldade intencional. Mais recentemente, se percebeu que a maior parte do sofrimento animal pelas mãos humanas não é consequência de crueldade, mas da utilização normal e socialmente aceita dos animais. Constatou-se que a imensa magnitude da miséria animal não deriva de motivos sádicos, mas de razões nobres e altos ideais, como, por exemplo, a eficiência na obtenção de alimentos. Somente nas últimas três décadas os filósofos começaram a tentar estender sistematicamente seus conceitos ao domínio não humano. O que pode surpreender agora não é o fato de que um grande número de filósofos esteja reivindicando uma ética para os animais, mas, sim, o fato de que tais reivindicações ainda pareçam absurdas para muitos outros”.

IHU On-Line – Que limite deve ser imposto à experimentação com animais?

Carlos Naconecy – Com o passar do tempo, a sensibilidade de uma sociedade pode considerar como eticamente obsoleta ou insuficiente uma prática que antes era vista como moralmente aceitável. O modo livre como a ciência e a tecnologia tratavam os animais, por exemplo, há algumas décadas atrás, não era considerado como moralmente problemático. As decisões sobre o uso de animais na ciência eram, afinal, um assunto de ciência, de cientistas para cientistas. Isso mudou.

Hoje, os usos e abusos da experimentação com animais são alvo de crítica por parte da sociedade civil. Essa contestação, envolvendo público e instituições, pede uma substituição do uso dos animais nos procedimentos. E a possibilidade de um estudante de anatomia evocar uma objeção de consciência nessa matéria não suscita mais a noção de tolice ou disparate. As realidades mudaram, portanto.

Enquanto isso, os animais são utilizados aos milhões anualmente na pesquisa biomédica, em testes de segurança de produtos comerciais e com propósitos educacionais. (Segundo a British Union for the Abolition of Vivisection, 61% dos experimentos em animais são realizados sem qualquer anestesia!) A ideia que está por trás das justificativas oferecidas para a experimentação – a propósito, muito conveniente para nós, humanos – é que um animal é suficientemente semelhante a um humano em alguns aspectos (exatamente aqueles que justificam a experimentação), mas não em outros (os que exigiriam nosso respeito moral por ele).

Além do mais, pratica-se uma espécie de terrorismo científico, propagando-se a ideia de que “se a experimentação com animais for banida, as pessoas começarão a morrer!” Mas, segundo o Statistics of Scientific Procedures on Living Animals, do Reino Unido, de 2007, apenas 21% dos experimentos com animais são para testar novos produtos médicos. Não estamos falando, portanto, de salvar vidas humanas, mas sim de esbanjar a vida dos animais por motivos fúteis ou inúteis.

Há que se atentar ainda ao fato de que 99% dos animais que são retalhados não o são para mostrar a circulação sanguínea nas escolas, nem para observar o efeito de uma substância química no seu organismo – 99% dos animais sobre o nosso planeta são cortados no açougue, não no laboratório. A pior forma de desrespeitar uma criatura é “coisificá-la” como algo comestível. A justificação ética a favor da experimentação com um animal, com todas as suas fragilidades, ainda é mais forte que a justificação em se alimentar desse mesmo animal. O ponto aqui é muito simples: se eu posso matar para comer, por que eu não poderia matar para testar, ensinar e conhecer? A obtenção de conhecimento biomédico é supostamente mais importante, em termos morais, que a obtenção de um prazer culinário ou degustativo. Quero dizer que, se você realmente se preocupa com os animais de laboratório, você deve também se preocupar – e se preocupar antes – com o destino dos animais de panela.

Categorias:ANIMAIS, ATIVISMO, ÉTICA

Perda de biodiversidade já ameaça economia

“A humanidade criou a ilusão de que, de alguma forma, é possível se virar sem biodiversidade, ou de que isso é periférico no mundo contemporâneo”, disse Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

A destruição de ecossistemas da Terra deve começar a afetar economias de vários países nos próximos anos, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU).

O Terceiro Panorama Global de Biodiversidade (Global Biodiversity Outlook ou GBO-3, na sigla em inglês) afirma que vários ecossistemas podem estar próximos de sofrer mudanças irreversíveis, tornando-se cada vez menos úteis à humanidade.

Corais estariam entre os ecossistemas mais ameaçados de extinção

Entre estas mudanças, segundo o relatório da ONU estariam o desaparecimento rápido de florestas, a proliferação de algas em rios e a morte generalizada de corais.

Até o momento, a ONU calculou que a perda anual de florestas custa entre US$ 2 trilhões e US$ 5 trilhões, um número muito maior que os prejuízos causados pela recente crise econômica mundial.

O cálculo foi feito com base nos valores estipulados em um projeto chamado Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (EEB) para serviços prestados pela natureza, como a purificação da água e do ar, a proteção de regiões litorâneas de tempestades e a manutenção da natureza para o ecoturismo.

“Muitas economias continuam cegas ao enorme valor da diversidade de animais, plantas e outras formas de vida e ao seu papel no funcionamento de ecossistemas saudáveis”, disse Achim Steiner.

“Na verdade, precisamos dela mais do que nunca em um planeta com seis bilhões de pessoas indo a nove bilhões em 2050.”

Segundo a ONU, quanto maior for a degradação dos ecossistemas, maior será o risco de que elas percam grande parte de sua utilidade prática para o homem.

Exemplo brasileiro

A Amazônia é citada como um dos ecossistemas ameaçados de atingir o chamado “ponto sem volta”, mesmo com a recente diminuição nas taxas de desmatamento e com o plano de redução do desmatamento, que prevê a redução de 80% até 2020 em relação à média registrada entre 96 e 2005.

O relatório da ONU cita um estudo coordenado pelo Banco Mundial que afirma que se a Amazônia perder 20% de sua cobertura original, em 2025, certas partes da floresta entrariam em um ciclo de desaparecimento agravado por problemas como mudanças climáticas, queimadas e incêndios.

O relatório ressalta que o plano brasileiro deixaria o desmatamento acumulado muito próximo de 20% da cobertura original.

No entanto, o Brasil também é citado como exemplo no que diz respeito à criação de áreas de proteção ambiental.

“Alguns poucos países tiveram uma contribuição desproporcional para a expansão da rede global de áreas protegidas (que, segundo o relatório cresceu 57%): dos 700 mil quilômetros quadrados transformados em áreas de proteção desde 2003, quase três quartos ficam no Brasil, em grande parte, resultado do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa).”

Na Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD, na sigla em inglês), cientistas afirmaram que os governos nacionais não conseguiriam respeitar as suas metas de redução da perda de biodiversidade até 2010.

“Não são boas notícias”, disse o secretário-executivo da CBD, Ahmed Djoglaf.

“Continuamos a perder biodiversidade em um ritmo nunca visto antes na História. As taxas de extinção podem estar até mil vezes acima da taxa histórica.”

Metas fracassadas

A ONU diz ainda que a variedade de vertebrados no planeta – uma categoria que abrange mamíferos, répteis, pássaros, anfíbios e peixes – caiu cerca de um terço entre 1970 e 2006.

A meta de redução de perda de biodiversidade foi acertada durante uma reunião em Johanesburgo, na África do Sul, em 2002. No entanto, já se sabia que seria difícil mantê-la.

A surpresa do relatório GBO-3 é que outras 21 metas subsidiárias tampouco serão cumpridas globalmente.

Entre elas, estão a redução da perda e degradação de habitats, a proteção de pelo menos 10% das regiões ecológicas do planeta, controle da disseminação de espécies invasivas e a prevenção de extinção de espécies devido ao comércio internacional.

Uma sinal claro do fracasso registrado no relatório é que nenhum dos países envolvidos conseguirá atingir todas as metas até o fim do ano.

Fonte: BBC

Categorias:ECONOTÍCIAS

Anvisa publica regras para compra de antibióticos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nesta quinta-feira (28.10), no Diário Oficial da União, as novas regras para a compra de medicamentos antibióticos em farmácias. Isso se deve em função da superbactéria KCP (abreviação do seu nome científico) que existe apenas em hospitais. A bactéria multirresistente dificulta o tratamento de doentes e força o uso de drogas altamente tóxicas ou que, por serem muito caras, nem sempre estão disponíveis na rede pública.

Em um país onde a saúde pública está falida e as pessoas só conseguem agendar consultas pelo SUS com meses de antecedência isso poderá ser um grande problema. O SUS não disponibiliza médicos para atendimento imediato e a ANVISA inviabiliza a compra de remédios sem receita médica. Mais um ingrediente para o caos-brasil…

A partir do dia 28 de novembro os antibióticos deverão ser vendidos sob prescrição médica e as farmácias deverão reter a receita, que será emitida em duas vias, no ato da venda. O paciente deverá ficar com uma via da receita de controle especial, carimbada pela farmácia, como comprovante do atendimento. A outra via ficará retida no estabelecimento farmacêutico.

A prescrição médica para antibióticos terá dez dias de validade. Ela deve estar em letra legível e sem rasuras, e precisam informar o nome do medicamento ou da substância prescrita sob a forma de Denominação Comum Brasileira (DCB), dosagem ou concentração, forma farmacêutica, quantidade e posologia; nome completo do paciente; nome do médico, registro profissional, endereço completo, telefone, assinatura e marcação gráfica (carimbo); identificação de quem comprou o remédio, com nome, RG, endereço e telefone; data de emissão.

Na embalagem e no rótulo dos medicamentos contendo substâncias antimicrobianas deve constar, obrigatoriamente, na tarja vermelha, em destaque a expressão: “Venda sob prescrição médica – Só pode ser vendido com retenção da receita”. A mesma frase deve constar com destaque na bula dos medicamentos.

Os fabricantes de remédios terão o prazo máximo de 180 dias para adequação quanto à embalagem, rotulagem e bula. As farmácias e drogarias poderão vender os antibióticos que estejam em embalagens sem as novas regras desde que fabricados dentro até o final deste prazo determinado. O descumprimento das determinações constitui infração sanitária “sem prejuízo das responsabilidades civil, administrativa e penal cabíveis”.

A resolução da Anvisa, publicada no Diário da União, traz ainda a lista dos antibióticos registrados na Anvisa. O telefone da Anvisa para fazer denúncias de estabelecimentos que não estejam cumprindo a lei é o 0800 642 97 82. Denúncias podem ser feitas também no site da Anvisa.

LISTA DOS ANTIMICROBIANOS REGISTRADOS NA ANVISA (Não se aplica aos antimicrobianos de uso exclusivo hospitalar).

1. Ácido clavulânico, 2. Ácido nalidíxico, 3. Ácido oxolínico, 4. Ácido pipemídico, 5. Amicacina, 6. Amoxicilina, 7. Ampicilina, 8. Axetilcefuroxima, 9. Azitromicina, 10. Aztreonam, 11. Carbenicilina, 12. Cefaclor, 13. Cefadroxil, 14. Cefalexina, 15. Cefalotina, 16. Cefazolina, 17. Cefoperazona, 18. Cefotaxima, 19.Cefoxitina, 20. Ceftadizima, 21. Ceftriaxona, 22. Cefuroxima, 23.Ciprofloxacina, 24. Claritromicina, 25. Clindamicina, 26. Cloranfenicol, 27.Daptomicina, 28. Dicloxacilina, 29. Difenilsulfona, 30. Diidroestreptomicina, 31. Doripenem, 32. Doxiciclina, 33. Eritromicina, 34. Ertapenem, 35.Espectinomicina, 36. Espiramicina, 37. Estreptomicina, 38. Etionamida, 39. Fenilazodiaminopiridina (fempiridina ou fenazopiridina), 40. 5-fluorocitosina (flucitosina), 41. Fosfomicina, 42. talilsulfatiazol, 43. Gemifloxacino, 44.Gentamicina, 45. Griseofulvina, 46. Imipenem, 47. Isoniazida, 48.Levofloxacina, 49. Linezolida, 50. Lincomicina, 51. Lomefloxacina, 52.Mandelamina, 53. Meropenem, 54. Metampicilina, 55. Metronidazol 56.Minociclina, 57. Miocamicina, 58. Moxifloxacino, 59. Neomicina, 60.Netilmicina, 61. Nistatina, 62. Nitrofurantoína, 63. Norfloxacina, 64.Ofloxacina, 65. Oxacilina, 66. Oxitetraciclina, 67. Pefloxacina, 68. Penicilina, 69. Penicilina V, 70. Piperacilina, 71. Pirazinamida, 72. Rifamicina, 73.Rifampicina, 74. Rosoxacina, 75. Sulfadiazina, 76. Sulfadoxina, 77.Sulfaguanidina, 78. Sulfamerazina, 79. Roxitromicina, 80. Sulfametizol, 81.Sulfametoxazol, 82. Sulfametoxipiridazina, 83. Sulfameto xipirimidina, 84.Sulfatiazol, 85. Sulfona, 86. Teicoplanina, 87. Tetraciclina, 88. Tianfenicol, 89. Tigeciclina, 90. Tirotricina, 91. Tobramicina, 92. Trimetoprima, 93.Vancomicina

Categorias:Uncategorized