Archive

Archive for março \31\UTC 2010

TOURADAS: Uma questão de CULTURA

“Tortura não é cultura” –  O grito soou  nas ruas de Madrid, palco de uma manifestação anti-tourada. Os ativistas dizem não aprovar a idéia das touradas como cultura. O Parlamento da Catalunha tem também realizado uma série de debates que podem levar à proibição de qualquer das festas taurinas.

A matéria que reproduzo  abaixo é do jornal de Negócios (Portugal) –  um “Artigo de opinião” de Leonel Moura.

 Tudo  muito interessante porque nos dá a  dimensão do que está sendo discutido na comunidade madrilena a cerca de um costume de mais de 200 anos: As touradas.  O fator que deu origem às acaloradas discussões por lá, ocorreu após o anúncio feito no início do mês pela presidente da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, que declarou as corridas de touros como um “bem de interesse cultural.” Em Portugal,  a criação de uma Seção especializada dedicada à tauromaquia no Conselho Nacional da Cultura deu origem à matéria de Leonel.

Vamos à matéria então:                                                                     

A cultura é o mecanismo que nos permite, enquanto espécie, evoluir para lá do lento e aleatório processo da evolução natural. A cultura é também aquilo que, a cada momento, gera o ambiente civilizacional no qual uma determinada comunidade opera.  Nessa medida, estando nós globalmente na era da sociedade da informação, muitos grupos humanos continuam a viver na Idade Média ou nos primeiros tempos da modernidade. Basta pensar nos campos de refugiados, nas áreas de grande pobreza e carências de toda a espécie ou nos que vivem sob regimes de base tribal ou assentes no despotismo. E até há quem – caso de algumas remotas tribos da Amazónia -, se mantenha no muito longínquo neolítico.

Mas estes desfasamentos não sucedem só em agrupamentos humanos que, por qualquer motivo, foram marginalizados do processo histórico. No interior da era coabitam outras eras. No tempo presente coexistem tempos passados. Certos rituais, tradições e comportamentos primitivos, apesar de claramente anacrónicos, persistem nas nossas sociedades desenvolvidas. É o caso exemplar das touradas.

Só na aparência se trata de um tema polémico. Na verdade, não há nenhuma polémica, nem nada digno de debate. O assunto é claro e evidente para toda a gente. Trata-se de um ritual retrógrado que não faz qualquer sentido, nem tem nenhuma justificação, na sociedade contemporânea. Recorde-se que já D. Maria II, em meados do século XIX, decretou a sua proibição por considerar "que as corridas de touros são um divertimento bárbaro impróprio de Nações civilizadas". Pelo menos há dois séculos que as touradas são um sinal de atraso e incivilização.

Todas as pseudo discussões sobre a preservação dos touros, se estes sentem dor ou não, a importância económica da atividade, a defesa da tradição, etc., nada acrescentam ao essencial e cristalino. A tourada é um espetáculo selvagem e criminoso. Ponto final parágrafo.

Muitas outras tradições têm sido abandonadas por serem indignas da condição do homem atual. Caminhamos para o reconhecimento dos direitos dos animais. Caminhamos para uma maior consciência da partilha do planeta com outras formas de vida. Caminhamos até para um sentido de cooperação e não de exploração e extermínio das outras espécies e da própria natureza. Os anacronismos que ainda persistem combatem-se com leis civilizadoras assentes, precisamente, na evolução e consenso cultural. Ou seja, a cultura, em sentido lato e específico nas suas várias vertentes humanizadoras, tem nestes assuntos um papel decisivo. É através dela que se promove o esclarecimento, a educação e uma visão mais avançada sobre o tempo em que nos foi dado viver. A cultura não é isenta, nem irresponsável. Estamos todos implicados.

Ora essa responsabilidade não pode deixar de estar presente a nível governativo. Do Ministério da Cultura espera-se um claro empenhamento na modernização geral do País e dos cidadãos. A par do desenvolvimento das novas tecnologias e novas aptidões, com grande incidência nos planos tecnológicos e nos programas dos Ministérios da Ciência e da Economia, seria de esperar uma participação não menos ativa do Ministério da Cultura na qualificação civilizacional dos portugueses. Ora, infelizmente, não é isso que se passa. Portugal não tem tido nenhuma sorte com os sucessivos ministros da cultura.

Ao incluir uma secção especializada dedicada à tauromaquia no recém criado e pomposo Conselho Nacional da Cultura, a Ministra Gabriela Canavilhas mostra, desgraçadamente, que ainda não é desta que temos à frente do ministério alguém que já viva no século XXI. Em vez de contribuir para a evolução positiva do País, com este gesto incongruente a ministra envia sinais de atavismo e tradicionalismo que só podem reforçar ainda mais o nosso atraso.

Não cabe exigir demissões. Esta gente passa e só deixa um rasto de irrelevância. Mas fica claro que continuamos a nada poder esperar de um ministério que devia dar o exemplo e ajudar a melhorar o nível cultural dos portugueses. A cultura, a verdadeira, continuará a ser desenvolvida noutros lugares.”

Categorias:Uncategorized

FOTOGRAFIA: Looking into the past

 

Abaixo um trabalho que acho sensacional. São fotos antigas sobrepostas em fotos do presente. Vale  conferir a galeria de Ed Hunsinger  no Flickr.  Ele diz não ser o pioneiro da idéia e que as fotos são do site LaughingSquid.com. De qualquer forma, o resultado é sensacional.

looking 1

 

looking into the past

 

looking 3

 

looking 4   

Fonte:  http://www.flickr.com/photos/edrabbit/galleries/72157623103181304/#photo_2495947415

Categorias:Uncategorized

Delícias veganas

Olha que delícia!!!

É do Bar da Gringa e é VEG@N !!!

O PRAT BURGUER (é o nome oficial do bar) fica na esquina da Demétrio Ribeiro com a Vasco Alves, bem pertinho do Castelinho do Alto da Bronze.

O bar é um espaço de arte de queridas artistas portoalegrenses onde ocorrem até reuniões ativistas e painel com informes pela libertação animal. E é recomendado pela Claudia Lulkin,
EcoNutricionista Vegana da SVB

Maiores informações no link: http://www.svbpoa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=100&Itemid=49

Fonte: SVB/POA

Categorias:Uncategorized

HORA DO PLANETA – Apague as luzes no dia 27 entre 20h30 e 21h30

março 26, 2010 1 comentário

  HORA DO PLANETA

Imagine  os maiores monumentos mundiais no escuro, da Torre Eiffel às Pirâmides do Cairo, passando pelo Portão de Brandenburgo em Berlim, a Fontana di Trevi em Roma, a ponte Golden Gate em São Francisco; a Catedral de Lima; a estátua de Alexandre O Grande, na Grécia; a Cidade Proibida, em Beijing; o Forte Vermelho, na Índia e o segundo maior prédio do mundo, Taipei 101, em Taiwan, todos apagados.

A HORA DO PLANETA, iniciativa que começou em 2007 para mostrar nossa preocupação com as mudanças climáticas, acontecerá no próximo sábado, 27 de março, entre 20h30 e 21h30 (horário de Brasilia).

Em 2007,  a Hora do Planeta aconteceu apenas em Sidney, na Austrália. Em 2008, 371 cidades participaram. No ano passado, quando o Brasil participou pela primeira vez, o movimento superou todas as expectativas. Centenas de milhões de pessoas em mais de 4 mil cidades de 88 países apagaram as luzes. Monumentos e locais simbólicos, como a Torre Eiffel, o Coliseu e a Times Square, além do Cristo Redentor, o Congresso Nacional e outros ficaram uma hora no escuro.

Em 2010,  2.383 cidades em 117 países participarão da Hora do Planeta desligando as luzes de seus monumentos mais conhecidos e maiores construções. Conforme o WWF Brasil, serão 812 ícones mundiais sem luz.

O WWF  informa também que as três cidades situadas mais ao norte no globo, Murmank (Russia), Hammerfest (Noruega) e NuuK (Groelândia), e as três mais ao sul, Hobart (Austrália), Ushuaia (Argentina) e Queenstown, na Nova Zelândia, também estão engajadas na Hora do Planeta 2010 e levarão o movimento literalmente de norte a sul da Terra, sendo inclusive na Nova Zelândia que o movimento global irá começar. Pelo fuso horário, as Ilhas Chatham serão o primeiro local a apagar suas luzes. No Brasil, até o momento, a informação é que 145 monumentos e locais públicos serão apagados.

Participe você também. Cadastre-se e saiba como aderir e divulgar a Hora do Planeta 2010:

Site oficial e cadastro: www.horadoplaneta.org.br
Kit de mobilização: www.horadoplaneta.org.br/divulgue.php

Categorias:Uncategorized

“Parar de comer carne não seria solução” – ASNEIRAS DE UM JORNALISTA DESCUIDADO…

 

Pois é,  mesmo tendo dito lá nos comentários do blog Arpuro (http://wp.clicrbs.com.br/blogarpuro/2010/02/18/vereador-propoe-criacao-da-segunda-sem-carne/) que não participaria mais de discussões na mídia, acabo indignando-me com a falta de qualidade de alguns na imprensa nacional que, sem nenhum critério acabam lançando asneiras e deturpando idéias. No tal texto, a jornalista dá informações equivocadas sem ao menos citar a fonte.

Fora isso, blogs como o do Edimilson (tecnologia-acao.blogspot.com) prosseguem no cltrV direto da INFO, dando divulgação às bobagens…

O título da matéria que me refiro, escrita ontem , 25/mar, por Paula Tothman da INFO Online é: 

Tecnologias verdes

Parar de comer carne não seria solução

 

Na matéria o pesquisador Dr. Frank Mitloehner, perito em qualidade do ar da Universidade da Califórnia-Davis, tem suas idéias revistas e reescritas conforme o julgamento descuidado e superficial da jornalista.

Arrumando as coisas – A realidade dos fatos:

A conclusão a que se refere a matéria da INFO, foi apresentada no 239º  Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química e, na verdade o pesquisador diz que não é cientificamente correto culpar APENAS vacas e porcos pelo efeito estufa, pois isso tira o foco de outras causas também relevantes. 

“Reduzir a produção e o consumo traria benefícios menores ao meio ambiente do que o que se acreditava”, foi o que afirmou o cientista Frank Mitloehner, da Universidade da Califórnia em Davis (UCD) no 239º Encontro da ACS.

Entendendo a situação:

Um relatório de 2006 – intitulado A Grande Sombra do Gado, publicado pela FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura – concluiu que a produção de carne é responsável por 18% das emissões de gases nocivos ao ambiente. Pelo relatório, a indústria da carne polui mais do que o setor de transporte. Este relatório vem sendo citado por ativistas e celebridades que fazem campanha por dietas mais baseadas em vegetais, como o ex-beatle Paul McCartney (no ano passado, o músico lançou uma campanha com o lema "Menos carne = menos calor").

No início da semana, durante  o 239º Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química, o pesquisador Frank Mitloehner argumentou que, no relatório da FAO de 2006, a comparação da produção de carne com o setor de transporte é equivocada. Mitloehner afirma que os autores do relatório não calcularam as emissões do setor de transporte da mesma forma, se limitando a usar dados do IPCC que só incluem queima de combustíveis fósseis.

Um dos autores do relatório da FAO, Pierre Gerber, disse à BBC que aceita a crítica feita por Mitloehner. "Eu tenho que dizer que, sinceramente, ele tem razão em um ponto – nós analisamos tudo na produção de carne, e não fizemos a mesma coisa com transporte", disse ele. "Mas o resto do relatório eu creio que não foi realmente contestado." Ainda: "Eu tenho que dizer que, sinceramente, ele tem razão em um ponto – nós analisamos tudo na produção de carne, e não fizemos a mesma coisa com transporte. A FAO está preparando agora uma análise mais abrangente de emissões do setor de alimentos, disse Gerber."

O relatório será concluído até o final do ano e deve permitir comparações mais precisa entre diferentes tipos de dietas – tanto com carne como vegetarianas.

Organizações usam métodos diferentes para alocar emissões entre setores da economia. Em uma tentativa de capturar tudo que é associado com produção de carne, a equipe da FAO inclui contribuições, por exemplo, de transporte e desmatamento.

A metodologia usada pelo IPCC  separa emissões de desmatamento em uma categoria diferente, mesmo que algumas árvores tenham sido derrubadas para contribuir para a agricultura. O mesmo acontece com o transporte. Por isso, para alguns analistas, o índice de 18% de emissões produzidas pela indústria da carne no relatório da FAO é tão elevado. A maioria das emissões relacionadas à indústria da carne vem da abertura de campos – feita por desmatamento – e das emissões associadas à digestão de animais.

Outros cientistas argumentam que a carne é uma fonte necessária de proteína em algumas sociedades com pouca diversidade de alimentos, e que em regiões do leste africano e do Ártico não há possibilidade de plantas sobreviverem. Nesses lugares, a dieta baseada em carne é a única opção.

 

Feita a crítica, confesso que não pude deixar de postar um comentário na página da INFO. Não deu…

Até porque os motivos para alguém se tornar vegano (ou vegetariano, sendo menos radical) não se baseiam apenas (tão-somente)  no efeito estufa…

 

Para quem quiser conferir:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2010/03/100324_carne_clima_dg.shtml

http://info.abril.com.br/noticias/tecnologias-verdes/parar-de-comer-carne-nao-seria-solucao-24032010-7.shl

Categorias:Uncategorized

CAMA DE GATO

 

Muito legal a idéia do site conceito ecológico… Se você também tem monitores que já não servem para nada, que tal dar um de presente para o bichano?

cama de gato

cama de gato 2

cama de gato 3

Categorias:Uncategorized

UM ASSUNTO POLÊMICO: Bem-Estar Animal ou Libertação Animal?: uma Análise Crítica da Argumentação AntiBem-Estarista de Gary Francione

confinamento 2

Em tempo de polêmicas, resolvi postar aqui o tema apresentado no 12th Vegan Festival International pelo filósofo gaúcho, Dr. Carlos Naconecy, que faz uma crítica à argumentação antibem-estarista de Gary Francione ( “Reformas bem-estaristas são mais prejudiciais aos animais do que reforma nenhuma; Apenas os movimentos que lutam pelo fim da exploração são benéficos aos animais”…).

Bem-Estar Animal ou Libertação Animal?: uma Análise Crítica da Argumentação AntiBem-Estarista de Gary Francione
Dr. Carlos Naconecy*
____________________________________________________________________________
Sinopse: Não devemos ajudar nenhum porco que esteja sofrendo diante de nós, a menos que essa
ajuda esteja relacionada à abolição da escravidão dos porcos. Os porcos devem, assim, abrir mão de
seus interesses mais vitais e imediatos a bem da causa da abolição. Tampouco devemos melhorar as
instalações de criação animal, na medida em que isso retardaria a abolição da pecuária. Aliás, por que
não usar gaiolas mais sujas e apertadas a fim de acelerar a libertação das galinhas? Por essa razão, a
China, onde a legislação bem-estarista é insignificante, está mais próxima de abolir a escravidão animal
do que outros países. Reformas bem-estaristas são mais prejudiciais aos animais do que reforma
nenhuma. Apenas os movimentos que lutam pelo fim da exploração são benéficos aos animais. Querer
promover o bem-estar dos frangos implica estar concordando implicitamente com o uso deles como
comida. É correto aumentar o bem-estar de uma pessoa, mas não devemos tentar aumentar o bem-estar
de uma vaca. O presente artigo, apresentado no 12th Vegan Festival International, ataca, na linha de
David Sztybel principalmente, esses e outros resultados da argumentação antibem-estarista de Gary
Francione.
___________________________________________________________________________

1. Por que a escolha deste tema?
Dentro do panorama atual do movimento de defesa animal tem ocorrido um fenômeno muito
singular, a saber, uma polarização entre duas posições, a do chamado Bem-Estar Animal, de um
lado, e a do Direitos dos Animais, de outro, também chamado de Abolicionismo Animal.
Podemos qualificar essa contraposição: (1º) essa rivalidade está se acirrando, (2º) a
controvérsia se faz mais presente na esfera ativista do que na literatura acadêmica, (3º) muito do
combustível dessa disputa provém da obra do professor norte-americano de direito Gary
Francione e (4º) a conseqüência indesejável dessa rivalidade é a de passar uma mensagem
confusa para o público a respeito dos objetivos do movimento animalista.
Irei criticar aqui os argumentos antibem-estaristas de Francione, tal como eles aparecem na obra
Rain without Thunder1, dentre outros textos de menor fôlego. A escolha por esse autor se deve à
seguinte razão: o leitor não familiarizado com o debate internacional atual fica com a impressão
de que Francione tem quase o monopólio da reflexão em Ética Animal. Tal impressão decorre do
fato de que Francione é o pensador animalista que tem suas idéias mais amplamente ventiladas
nos meios de comunicação eletrônica da Internet, traduzidos convenientemente para o idioma
português. Por meio deles, Francione tem falado praticamente sozinho. Seus argumentos
parecem não receber contra-argumentação e são aceitos quase sem maiores contestações pela
comunidade ativista. Minha intenção é mostrar que sua argumentação não transita
pacificamente dentro do debate em Ética Animal. Farei isso apresentando, principalmente, um
extrato das críticas avançadas por David Sztybel no artigo Animal Rights Law: Fundamentalism
versus Pragmatism2, no qual é defendida a posição chamada de Abolicionismo Pragmático3,
além das contribuições de outros pensadores da área, como Steven Wise e Steve Best.
Meu objetivo aqui é apresentar uma posição ética pessoal que suspeito que muitas outras
pessoas também compartilham. Irei atacar a tese de que apenas os movimentos que lutam
exclusivamente pelo fim da exploração são benéficos aos animais. Irei disparar contra a idéia de
que reformas bem-estaristas são mais prejudiciais aos animais que reforma nenhuma. Ou seja,
sustentarei que a argumentação de Francione é fortemente questionável, cria um racha
desnecessário no movimento de defesa animal, e pode fazer mais mal do que bem para os
animais. Antes, porém,
gostaria de fazer uma ressalva, aparentemente óbvia, dirigida
principalmente àqueles não habituados ao exercício acadêmico: não confundam a crítica sobre
algum problema teórico na fundamentação da causa com a crítica à própria causa. Pode parecer
o oposto, mas as ponderações que se seguirão não visam desqualificar a causa abolicionista
;
pelo contrário.

2. O que diz Francione
Gary Francione é um filósofo do Direito, não um filósofo da Moral. Ele não nos apresenta uma
axiologia própria e genuína, mas apenas reúne conceitos de outros pensadores da área. De
Peter Singer, ele tomou emprestado o princípio de igual consideração de interesses e a
vinculação lógica entre interesses e senciência. E, de Tom Regan, ele tirou o conceito de sujeitode-
uma-vida e o princípio moral que proíbe usar uma criatura apenas como meio para o
benefício de outra – o chamado Princípio de Respeito de Regan – que, por sua vez, é uma
adaptação da segunda fórmula do Imperativo Categórico de Kant.
A principal contribuição positiva de Francione, no entanto, é distinguir, em termos morais e
legais, nosso uso de animais, de um lado, do nosso tratamento de animais, de outro. Por conta
disso, o movimento de defesa animal está dividido em três posições: (1) A escola do Bem-
Estarismo, que aceita o uso humano dos animais na medida em que eles sejam tratados
humanitariamente, isto é, que se evite seu sofrimento desnecessário. O foco desta corrente é a
regulamentação do tratamento animal; (2) a posição do Direitos dos Animais, ou Abolicionismo
Animal, que sustenta que nosso uso de animais não é moralmente justificado e, portanto, deve
ser abolido. Entre ambas as posições, temos (3) aquela que Francione denomina de "Novo Bem-
Estarismo", que defende a regulamentação a curto-prazo enquanto não se atinge o fim último da
libertação animal ou, pelo menos, uma redução significativa da exploração animal no futuro.
Francione declara que apenas a segunda posição, a do Direitos, é legítima.4
Em Filosofia Moral, direitos fundamentais protegem aquilo que é inegociável ou inalienável. A
tese básica de Francione é bastante clara: todos os seres sencientes têm o direito de não serem
usados exclusivamente como meios para os fins de outros. Diferentemente de quaisquer coisas
que possuímos, os animais têm o direito básico de não serem item de propriedade de seus
donos. Podemos chamar esse direito básico de "proto-direito", isto é, o direito de ter outros
direitos. Dito isso, apresento, a seguir, uma sucessão de objeções à posição de Gary Francione.

3. Francione apresenta falsas analogias: abolir o abuso dos animais em graus não é
semelhante a abolir o abuso infantil ou a tortura em graus. Propor o consumo eticamente
mais consciente de animais não é semelhante a propor o estupro com maior consciência
ética.
Inspirado por Francione, o discurso abolicionista freqüentemente compara uma ética da
suavização do sofrimento animal com uma ética da suavização da pedofilia, estupro e outras
violências hediondas. Trata-se, entretanto, de analogias enganadoras no sentido prático, uma
vez que a escravidão, estupro e pedofilia já são condenados pela nossa moralidade social e já
são considerados legalmente crimes, enquanto que a sociedade e os juízes aceitam o uso e a
exploração de animais. Pensar em eliminar a exploração animal gradativamente não é
pragmaticamente análogo a consentir no combate à exploração infantil também de forma
gradual, pois a exploração de menores já é entendida como moralmente inaceitável nas
sociedades contemporâneas. Já há leis contra o abuso infantil e as pessoas já se revoltam em
face da violência contra crianças, pelo simples fato de saberem que isso está acontecendo
diante delas. Mas expor o confinamento de uma porca-parideira numa gaiola de gestação não
gera indignação moral da maioria das pessoas. Uma reportagem sobre alguém que abusou de
uma criança já provoca a prisão do autor. Mas uma reportagem sobre a criação de porcos não
provoca a interdição da fazenda.
Essa analogia também resvala em outro ponto, quando estabelece uma semelhança entre o uso
mais consciente de animais e, por exemplo, o estupro com maior zelo ou escrúpulo por parte do
estuprador. Por quê? Porque propor reformas bem-estaristas para melhorar o tratamento dos
animais não implica legitimar o uso deles – da mesma maneira que propor leis que impõem
penas mais severas ao estuprador, que também espanca sua vítima, não significa reduzir a
gravidade moral do crime do estupro (sem espancamento). A retórica de Francione carrega um
sofisma aqui.

4. Francione comete o erro de desconsiderar o contexto de um problema moral na
comparação entre escravidão humana e escravidão animal

Francione pratica também um erro de interpretação contextual de injustiças. Se há um clima
social já favorável à abolição da escravidão de uma categoria de vítimas, uma lei bem-estarista
irá atrasar o processo abolicionista. Mas se a atmosfera social for desfavorável à abolição, uma
norma bem-estarista não irá retardar ou impedir a abolição; ao contrário, irá promovê-la. Voltarei
a isso mais adiante, mas, por enquanto, uma referência à escravidão humana no Brasil colonial
pode ser esclarecedora.
Podemos admitir que, no final do século XIX, a aprovação de uma lei que regulamentasse a
ventilação nas senzalas, obrigando a instalação de janelas, poderia ter retardado a assinatura da
Lei Áurea no Brasil. Por quê? Porque já havia uma sensibilidade social pró-libertação dos
escravos à época. Mas esse não é o caso da abolição animal: a possibilidade política e jurídica
de promulgação de leis que proíbam o uso dos animais hoje, em grande escala, é praticamente
nula. De qualquer modo, duvido que Castro Alves, eminente abolicionista, fosse contrário a uma
lei que obrigasse a instalação de janelas das senzalas oitocentistas. Tampouco ele mereceria o
título de "novo escravagista", apenas por ser a favor de tais janelas.

5. Sob pena de incoerência, Francione deveria ser contrário à legislação bem-estarista
voltada aos humanos

Se é eticamente correto aumentar o bem-estar de seres humanos, por que seria diferente em se
tratando de animais? Tomemos o caso do salário mínimo no Brasil. A imensa maioria dos
trabalhadores assalariados comemora quando o valor do salário sobe. Em 2009, o salário
mínimo teve um acréscimo de R$50, passando para algo em torno de R$500,00. Seguindo a
lógica de Francione, deveríamos ser contra a lei que concedeu esse aumento, pois apenas
retardou a aprovação de um salário digno (digamos, de US$ 2000), que atenderia, assim, a
todas as necessidades básicas humanas e asseguraria o direito fundamental do trabalhador a
um tratamento digno. O mesmo vale para o aumento do seguro-desemprego e para os valores
da aposentadoria. Pergunto: já que tais leis podem ser classificadas como "bem-estaristas", elas
seriam contrárias aos direitos dos cidadãos? A argumentação de Francione sugere que sim.
Vejamos outro exemplo: uma lei que obriga a instalação de rampas para cadeira de rodas nos
edifícios pode ser chamada, igualmente, de uma lei "bem-estarista". Seguindo o mesmo
raciocínio de Francione, tal lei seria ruim para os cadeirantes, na medida em que apenas
ameniza o problema da acessibilidade, não alterando a idéia de que cadeirantes são inferiores a
outras pessoas, já que, em termos urbanísticos, suas necessidades têm menor valor em relação
as dos não-cadeirantes. Os deficientes físicos, afinal, têm direito, não só a rampas nos prédios,
mas à igualdade de movimento em todas as calçadas e espaços públicos da sua cidade. Aquela
rampa só suavizaria a discriminação contra deficientes físicos, portanto, de acordo com
Francione, a lei em questão seria uma má lei em termos morais e deveria ser recusada pelos
ativistas que militam a favor dos cadeirantes.
Note que, em suma, podemos acusar Francione de praticar especismo, pois creio que ele
aprova o aumento do bem-estar dos seres humanos, como algo bom, justo e correto, mas é
contrário ao aumento do bem-estar dos animais. Por outro lado, desempregados, aposentados e
deficientes físicos têm o direito pleno de serem protegidos pelo Estado, mas essa proteção, no
mundo real da política e da economia, envolve negociação e progride, sim, em graus. Por que
isso seria diferente para o caso dos animais?

6. As melhorias bem-estaristas não teriam o efeito sobre o mercado que Francione supõe
Francione argumenta que, se as condições de criação animal forem aliviadas ou atenuadas,
mais pessoas irão consumir produtos animais, com a sua consciência moral mais leve,
aumentando, assim, a exploração, as mortes e os sofrimentos. Há alguns pontos frágeis nessa
conjectura:
(I) O efeito das leis bem-estaristas sobre os consumidores não seria exatamente aquele que
Francione prevê. As pessoas que já são vegetarianas não vão deixar de ser só porque os
animais começarão a ser mais bem tratados nas fazendas e nos matadouros. E as pessoas que
já comem animais não vão aumentar seu consumo por causa disso. Os únicos consumidores
que seriam influenciados por reformas bem-estaristas são aqueles que já concordam com a
exploração, mas são mais sensíveis ao sofrimento animal. As pessoas que já condenam a
exploração animal não vão alterar sua opinião com as novas normas de bem-estar. E aquelas
pessoas veganas que boicotam os produtos de consumo baseados nos direitos dos animais vão
continuar boicotando, mesmo se o bem-estar dos animais aumentar.
(II) Leis bem-estaristas não irão criar a opção de produtos orgânicos, "animais felizes" ou "freerange"
para o consumo das pessoas mais conscientes: esses produtos já estão disponíveis no
mercado.
(III) A repercussão que a mídia daria a medidas bem-estaristas, como, por exemplo, a proibição
de gaiolas de bateria, poderia dar maior visibilidade à causa abolicionista, convertendo
eventualmente as pessoas ao veganismo, em vez de fazê-las maiores consumidores de
produtos animais.
(IV) Novas normas de bem-estar animal fariam aumentar os custos da criação e exploração de
animais: os criadores iriam pagar mais aluguel de instalações, criar menos animais no mesmo
espaço, pagar mais pela ração, gastar mais com a ventilação dos galpões, etc. Ou seja, todo o
custo de ter que explorar animais aumentaria, e o aumento dos preços dos produtos iria
desestimular o próprio consumo. De fato, isso já ocorre com a carne oriunda da criação
extensiva, que tende a ser mais cara do que a da criação intensiva.
(V) Conforme Francione, o aumento do bem-estar animal faria aumentar o número de animais
abatidos. Teríamos, então, um cenário de mais direitos à vida violados, mas mais direitos ao
bem-estar atendidos. Num cálculo moral, poderia ser eticamente preferível criar 100 vidas com
50% de sofrimento do que 10 vidas com 100% de sofrimento.

7. Francione e a expressão enganadora "Novo Bem-Estarismo"
Aqui o problema é terminológico. Segundo Francione, um abolicionista que é a favor de leis
bem-estaristas a curto-prazo não é realmente um abolicionista, mas, sim, o que ele chama de
"novo bem-estarista". O Novo Bem-Estarismo seria, então, aquela posição híbrida formada pelo
Bem-Estar Animal agora e pelo Direitos dos Animais assim que for possível. Ora, essa
expressão sugere falsamente que não há diferença significativa entre o novo e o velho bemestarismo.
Mas há, e é grande: o chamado Novo Bem-Estarismo adota o ideal da abolição, não
se opondo à noção de direitos dos animais. O "Velho" Bem-Estarismo, ao contrário, não abraça
o ideal da abolição. Qualquer pessoa que almeja a abolição da escravidão animal é, por
definição, um abolicionista, não importa que a estratégia adotada por ele seja eventualmente
errada, e merece, portanto, esse nome – e não o sufixo enganador "novo" – a não ser por uma
tirada retórica, no pior sentido do termo. Note que essa terminologia falaciosa de Francione
promove uma divisão no movimento animalista e uma falta de comunicação entre os ativistas.

8. O principal erro estratégico de Francione: "Como as leis bem-estaristas não causam a
abolição, então elas devem ser rejeitadas."

Francione diz que regulamentações bem-estaristas já existem há cerca de duzentos anos e,
ainda assim, estamos usando mais animais, e de maneira mais horrenda, do que em qualquer
outra época da história humana. Em primeiro lugar, o argumento não prova muito
empiricamente: estamos também usando mais brócolis e grãos-de-bico do que antes.
Exploramos mais animais hoje que outrora devido ao aumento da população humana e ao
desenvolvimento tecnológico na pecuária – não em virtude de um aumento da insensibilidade
das pessoas quanto ao destino dos animais. De fato, ao observarmos as sociedades
contemporâneas, estamos atualmente testemunhando o contrário dessa premissa de Francione.
Em segundo lugar, o que autoriza Francione a decretar que, após esses duzentos anos, acabou
o período de testes do Bem-Estarismo e, assim, já está provado que as leis bem-estaristas não
funcionam? Isso é curioso, já que a proposta abolicionista, sendo muito mais recente em termos
históricos, também não nos garante nenhum resultado a ser atingido.
De qualquer modo, nenhum abolicionista pragmático afirma que reformas em prol do bem-estar
animal irão, por si só, levar à abolição e ao fim do especismo. Mas, cuidado, não deixe que
Francione faça você acompanhá-lo num sofisma: se o aumento do espaço das gaiolas não nos
levou até agora à abolição do uso de galinhas, isso não significa que deixar a gaiola apertada irá
trazer a liberdade para elas. Em terceiro lugar, portanto, podemos dizer que um erro básico de
Francione é considerar a causação moral uma questão de "tudo ou nada". Ou seja, já que as leis
bem-estaristas não causam a abolição, então elas fazem mais mal do que bem para os animais.
Para elucidar essa falácia, de acordo com Sztybel, se faz necessário distinguir dois tipos de
ações diferentes: "causar algo" e "conduzir a algo". Um estado de coisas, acontecimento ou fato
A causa um acontecimento B quando, dada a ocorrência do primeiro, se produz, origina ou
determina a ocorrência do segundo. Na causação, se A ocorre, então B também deve ocorrer.
Por outro lado, A conduz a B quando A torna mais provável que B ocorra em conjunção com
outros fatores. Neste caso, A não causa, mas possibilita a ocorrência de B.
Voltemos ao nosso ponto. Um abolicionista pragmático não afirma que o Bem-Estarismo é
suficiente para causar a abolição da escravidão animal no futuro. Ele está apenas dizendo que
as regulamentações bem-estaristas influenciam favoravelmente a causa abolicionista. Leis bemestaristas
tendem a conduzir a leis abolicionistas, com maior probabilidade, mas não com
garantias de que isso ocorra. Leis bem-estaristas, por si só, não assegurarão a implantação dos
direitos dos animais, mas criam condições geralmente favoráveis para isso. Uma lei que proíba a
criação industrial de porcos, por exemplo, pode ser interpretada, neste sentido, como uma lei
que dá um passo em direção à libertação dos porcos.
A mesma dinâmica também ocorre no domínio da literatura animalista. Um texto bem-estarista
não causará automaticamente a compreensão da idéia abolicionista pelo leitor, mas, em
conjunção com a inteligência e a sensibilidade moral de quem o lê, freqüentemente conduz à
adoção da causa. O livro de Peter Singer, Libertação Animal, é um livro, sabemos, bemestarista,
não abolicionista. Singer inclusive defende a vivissecção em determinadas situações.
Mas mesmo não sendo abolicionista, a leitura desse livro inspirou e influenciou milhares de
abolicionistas e veganos pelo mundo afora. Isto mostra claramente que proposições bemestaristas
podem nos aproximar da posição abolicionista. Em suma, o Bem-Estarismo cria um
ambiente favorável na mentalidade das pessoas para que o Abolicionismo possa florescer como
idéia moral.

9. O caso da China e da Suécia contrariando a argumentação de Francione
Disse antes que regulamentações bem-estaristas promovem – e não bloqueiam ou atrasam –
resultados abolicionistas. Por quê? Porque leis bem-estaristas influenciam favoravelmente a
formação de mentalidades e de culturas compassivas, possibilitando trazer a noção de Diretos
dos Animais para o interior delas. Com efeito, é difícil de acreditar que a promoção da bondade e
da compaixão numa sociedade se torne um obstáculo ao Direitos dos Animais. Muito pelo
contrário: em sociedades com altos teores de violência e crueldade, falar da imoralidade de
possuir e usar criaturas sencientes irá obter uma adesão praticamente zero entre os ouvintes.
Dois casos diametralmente opostos, China e Suécia, serão suficientes para ilustrar este ponto.
É fato de conhecimento público que a condição dos animais na China é deplorável. Lá
praticamente não existem leis bem-estaristas. Não é por acaso que haja poucos pensadores
abolicionistas, grupos ativistas e consumidores veganos chineses (em termos proporcionais).
Por que isso não se trata de mera coincidência? Por que há uma relação causal entre esses dois
fatos? Por uma simples razão: em uma cultura cruel não há um potencial democrático favorável
ao Direitos dos Animais. Uma sociedade caracterizada pela insensibilidade aos animais não
promoverá o Veganismo ou o Abolicionismo. Na China, particularmente, o discurso do Direitos
dos Animais deve soar como ridículo para 99,9% da população e, assim, irá produzir poucos
ativistas. Lá, propor uma legislação para animais, como sujeito de direitos, provocaria muito mais
risos do que aqui no Brasil. A partir disso, fica claro que o rival do Direitos dos Animais não é o
Bem-Estar Animal, como sugere Francione. O rival do Abolicionismo não são as leis bemestaristas.
Ao contrário, ambos são aliados na formação de uma cultura nacional de respeito e
compaixão com os animais.
Passemos ao exemplo da Suécia. Aquele país já conta com leis banindo a criação de galinhas
em baterias de gaiolas e de porcas em celas de gestação. Isso significa que esses animais
suecos dispõem de mais espaço para se moverem, um ambiente melhor e menos estresse
durante suas vidas. Essas leis suecas foram supostamente aprovadas por razões bemestaristas,
e não pela noção moral de direitos. Francione diz que as leis bem-estaristas são
inúteis ou fúteis, porque não alteram o status de propriedade dos animais. Mas não é sensato
considerar que a proibição da criação intensiva de animais num país inteiro seja um resultado
inútil ou insignificante. Se o argumento de Francione estivesse correto, a forte legislação bemestarista
sueca faria com que a Suécia estivesse mais distante do ideal abolicionista do que a
China, o que é uma hipótese evidentemente absurda. É óbvio que se passa o contrário: é a
China que está mais longe de abolir a escravidão animal.
Francione afirma que leis bem-estaristas são inúteis, dentre outras razões, porque, na medida
em que os animais continuam sendo tratados como propriedades, (1) apenas os interesses dos
seus proprietários serão considerados, especialmente o interesse de explorar sua propriedade
mais eficientemente, (2) os animais não têm relações legais com seus proprietários ou com
outras propriedades, (3) não têm direitos de serem bem-tratados e (4) não terão valor nenhum
se perderem seu valor de mercado. Francione, a este respeito, apresenta a analogia da caneta:
uma caneta não pode ter direitos frente ao seu dono, do mesmo modo que um animal também
não pode ter seus interesses ponderados com os interesses de seu proprietário. Podemos
retomar o exemplo sueco para problematizar as razões de Francione. Como foi dito, uma
legislação bem-estarista sueca aboliu a criação de animais em baterias. Note que as leis que
protegeram os animais foram aprovadas apesar dos interesses contrários dos proprietários dos
animais criados, que, assim, tiveram seu lucro reduzido. Essa legislação estabeleceu, sim,
relações legais entre humanos e animais-propriedade, que resultaram protegidos legalmente.
Além disso, a analogia da caneta é enganadora, pois a legislação bem-estarista foi aprovada
justamente devido ao reconhecimento de que os animais têm interesses no seu próprio bemestar
– ao contrário de canetas, que não têm interesses em nada. Por fim, a idéia de que
animais são propriedade, ao contrário do que sugere Francione, não foi suficiente para paralisar
a mente dos legisladores suecos que aprovaram leis a favor da liberdade de movimento por
parte dos animais.

10. Não é correto pensar que uma "Ética do Bem-Estar" seja rival de uma "Ética dos
Direitos":
buscar reformas bem-estaristas não significa concordar com o uso de animais
Propor medidas bem-estaristas que tratem os animais de forma "humanitária" não implica, de
modo algum, que o proponente esteja concordando com o uso de animais. Significa apenas
reconhecer que a conjuntura social e política atual não é suficiente para que a abolição do uso
dos animais seja instaurada legalmente. Vejamos: uma galinha poedeira em uma gaiola de
bateria tem 100% do seu interesse em se movimentar livremente desrespeitado. Uma galinha
criada free-range tem, digamos, 80% desse interesse respeitado. Para qualquer galinha real, de
carne e osso, 80% de liberdade física é muito melhor que o 0% de uma criação intensiva. Se
alguém aprova os 80% de liberdade, isso não significa que ele não deseje os 100%. Se alguém
concorda com o uso de anestésico na castração de porquinhos, isso não significa que ele esteja
aprovando o uso do porco como comida.
Neste ponto, um leitor de Francione irá objetar que, se alguém não aprova ou não deseja comer
carne, não deveria concordar com leis que permitem a ingestão de animais, mesmo que envolva
menos crueldade. Aquele que consente com o Bem-Estarismo a curto prazo visando à abolição
a longo-prazo é acusado de uma cumplicidade com a injustiça e colaboração com o mal. Ora,
podemos rebater isso evocando situações semelhantes. Acredito que Francione não tenha
aprovado a política militarista do governo George W. Bush. Mas alguém, então, poderia
argumentar que, já que Francione vivia nos EUA e sabia que parte dos seus impostos financiava
as operações militares do governo Bush, isso significa que o filósofo dera seu apoio, na forma de
uma cumplicidade tácita, à invasão do Iraque. Da mesma forma, parte dos impostos de um
vegano brasileiro vai para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, envolvida
diretamente com a exploração de animais para consumo humano. Já fica clara aqui a resposta à
acusação de cumplicidade tácita: Francione simplesmente não podia parar o exército americano
a curto-prazo, tanto quanto um abolicionista pragmático não pode parar a indústria da carne a
curto-prazo. Mas isso não significa estar aprovando ambas as situações. Note que a defesa de
um gradualismo pragmático em direção à abolição não significa que as etapas que separam o
Bem-Estarismo da Libertação Animal devem ser percorridas obrigatoriamente, lentamente e com
muita cautela. Ao contrário, devemos pular qualquer etapa nessa aproximação, assim que isso
se mostrar possível.
O perfil da organização PETA5 se presta para representar a posição abolicionista pragmática em
termos institucionais. Essa entidade defende leis bem-estaristas, ao mesmo tempo em que
advoga o veganismo e proclama, com todas as letras, o ideal moral abolicionista no seu mote:
"Os animais não são nossos para comer, para vestir, para fazer experiências, para nos entreter
ou para explorar de qualquer modo que seja". Veja a diferença: a WSPA6, por exemplo, não
explicita essa orientação ética abolicionista ou vegetariana; apenas menciona o fim da crueldade
e a promoção do bem-estar animal. Mas isso não significa que o mundo seria um lugar melhor
para os animais se a WSPA não existisse. De qualquer modo, se o PETA é a favor de uma lei
que aumenta o espaço para a criação dos frangos de corte, seria absolutamente leviano
interpretar isso como um sinal que o PETA é a favor da escravidão dos frangos ou do uso deles
no nosso jantar. Ao dar suporte para essa lei, o PETA apenas está mostrando que algo da sua
agenda abolicionista não pode ser realizado por enquanto (a parte do "animais não são nossos
para comer") – e não que o PETA carece de uma agenda abolicionista. São aqueles que
participam do assassinato de animais que estão aprovando essa matança. São aqueles que se
utilizam da escravidão animal que estão dando apoio ao especismo – e não uma entidade de
defesa animal como o PETA.

11. Não é o Bem-Estarismo, mas, em vez, é Francione que é complacente com a crueldade
com os animais, ao usá-los apenas como um meio para a abolição

Este tópico dá conta de dois tipos de erro de Francione, um estratégico-político e outro ético.
Vejamos o primeiro deles. Seria razoável supor três grandes fases pelas quais uma sociedade
passa no que diz respeito ao tratamento de animais: (1) de extrema crueldade (como agora), (2)
de crueldade substancialmente reduzida (como resultado de uma ampla legislação bemestarista)
e (3) do Direitos dos Animais. Francione esquece que as mudanças legais ocorrem
num passo conservador. Nesse passo legislativo conservador, das condições muito cruéis de
agora, chegaremos provavelmente a uma próxima fase legal de leis menos cruéis, e não a uma
fase de direitos de ter direitos. Numa sociedade tão especista quanto a nossa, seria muito
ingênuo esperar um "salto de vara" legislativo da crueldade para a Libertação Animal – estaria
faltando passar pela fase intermediária do Bem-Estar Animal, como uma transição antes da do
Direitos dos Animais. Dito de outro modo, seria ingênuo tentar saltar da pequena minoria que
apóia um congresso vegano esperando alcançar a grande maioria que passa ao largo desse
congresso, mas que é aquela que vota e faz as leis. Ademais, essa miopia estratégica tem
graves conseqüências políticas: é o próprio movimento abolicionista que favorece a
permanência de leis cruéis e a tolerância da população com a crueldade, na medida em que
tende a não promover campanhas para criação de leis ou, se o fizer, irá propor leis pouco
realistas, como, por exemplo, que dêem liberdade absoluta para os animais.
O segundo erro de Francione é de natureza moral. O movimento do Direitos dos Animais,
segundo ele, tem como objetivo abolir a exploração institucionalizada dos sencientes. Em
linguagem legal, isso significa erradicar o status de propriedade dos não-humanos. Ele diz, no
seu livro Rain without Thunder, que um abolicionista não pode sacrificar interesses fundamentais
dos animais hoje na esperança de que, amanhã, outros animais deixem de ser propriedade
humana.7 Pense, então, numa lei bem-estarista que prescreva gaiolas maiores para frangos.
Francione diria que o "Novo Bem-Estarismo" está desrespeitando os outros interesses das aves
hoje, almejando a libertação das aves amanhã. Ora, pergunta-se: não é o próprio Francione que
está permitindo a miséria animal atual a fim de garantir a abolição no futuro? Não é ele que está
propondo tratar os animais de hoje como meio para a causa abolicionista? É correto
desconsiderar o atual direito dos frangos em se movimentar na esperança de que outros frangos
tenham direitos totais amanhã? Não é o abolicionismo pragmático que trata os animais de hoje
como meros meios para fins futuros; é o abolicionismo de Francione que o faz.
Se seguirmos Francione, em vez de agirmos para obter mudanças bem-estaristas agora, iremos
manter as condições extremamente cruéis da exploração animal. Essa condescendência ou
tolerância passiva com o horror da criação animal atual é moralmente bem pior que a suposta
tolerância bem-estarista com o status de escravos que os animais detêm hoje. Francione
permite que o mal do sofrimento prossiga sem uma mudança efetiva e que continue mais que o
necessário. Ao não tentar produzir o que é melhor para os animais a cada momento, a cada
estágio do desenvolvimento moral da sociedade, é o abolicionista fundamentalista ou imediatista
que se torna cúmplice da miséria que atinge os animais hoje. E, ao apresentar propostas não
viáveis legalmente, é ele garante a manutenção do status quo especista.
Esta questão também é interessante do ponto de vista teorético, já que, em Ética Animal, a
concepção do Direitos dos Animais é filosoficamente contrastada com o modelo utilitarista. Os
filósofos do Direitos dos Animais, como Francione e Regan, usualmente criticam o Utilitarismo
por ser a filosofia moral que permite que um indivíduo seja tratado como simples meio para o
bem da maioria. Como foi dito, Francione, sendo contra medidas legais bem-estaristas que
aliviem em parte o sofrimento animal, está propondo indiretamente que a miséria atual dos
animais seja usada como meio para atingir o ideal abolicionista. Ora, se esperaria esse cálculo
de um filósofo utilitarista – e não de um filósofo do Direitos dos Animais, como ele.
Na verdade, esse aspecto da proposta francioniana cheira a totalitarismo. Qualquer ideologia
fascista se caracteriza pela idéia de que o bem da comunidade, grupo ou Estado se sobrepõe ao
dos indivíduos, exigindo o sacrifício deles em benefício do todo. No caso em questão, Francione
advoga o sacrifício de cada animal individual para o bem da causa abolicionista. Nessa
perspectiva, cada animal individual é tomado apenas como uma peça de manobra. Se eu
mesmo fosse um porco aprisionado numa baia neste exato momento, eu preferiria viver com
mais espaço, mais água e mais forragem antes de ser abatido. Pedir ao porco para abrir mão de
seus interesses mais vitais a bem da causa da abolição da escravatura dos porcos é apelar para
uma lógica "zoo-facista". E qualquer pessoa que propõe que um animal individual sacrifique
seus interesses imediatos para o bem dos animais como um todo pode ser chamado de Stalin
do movimento de defesa animal, por esta mesma razão.

12. Não há apenas um, mas dois tipos de Abolicionismo: o Abolicionismo
Fundamentalista e o Abolicionismo Pragmático
Embora uma pessoa ou um grupo de pessoas possam adotar uma Ética do Direitos dos
Animais, no sentido de ética pessoal, a criação de uma legislação abolicionista não é uma opção
a curto-prazo. Não se trata, então, de discutir se devemos ou não optar por uma legislação
abolicionista: isso não é nem mesmo uma possibilidade prática atualmente. Note que não se
está discutindo aqui o que é melhor para os animais a longo-prazo. Abolicionistas
fundamentalistas e abolicionistas pragmáticos concordam nisso. A questão aqui é: o que é
realmente melhor para eles a curto-prazo. Abolicionistas fundamentalistas e abolicionistas
pragmáticos concordam (a longo-prazo) no que diz respeito ao propósito da abolição animal,
mas discordam sobre o que é mais eficaz em termos de legislação (a curto-prazo) para atingir tal
fim.
Abolicionistas fundamentalistas e abolicionistas pragmáticos desejam o que é melhor para os
animais. Mas o que é melhor para eles? Há dois modos de compreender isso: o melhor
concebível ou imaginável (no plano do ideal) e o melhor realmente possível (no plano do factível
ou exeqüível). O que chamamos de melhor tem, portanto, duas dimensões. A idéia abstrata do
melhor para um indivíduo envolve uma atemporalidade, ou seja, não é dependente do seu
contexto histórico e social. Mas a realização concreta daquilo que é melhor depende, sim, do
que é caso num determinado momento histórico especifico. O correto ou o justo nada mais é do
que uma baliza, um marco, um princípio regulador último para as várias configurações fácticas
da nossa sociedade. O abolicionismo pragmático adota a concepção de justiça abolicionista
como ideal regulador. Entretanto, nossa sociedade, real e concreta, ainda não permite a
implantação do fim moral da abolição da escravidão animal. De fato, seria ingênuo pensar que o
homem deixará de interferir na vida dos animais a curto ou médio prazo. Isso, todavia, não nos
deve levar ao ceticismo: a tensão entre o melhor possível aqui e agora (o melhor real) e, do
outro lado, o justo e correto (o melhor ideal) é produtiva. Essa dialética gera tensão e diálogo
constantes e, desse modo, propicia o progresso moral da nossa sociedade.
Para um abolicionista pragmático, em suma, a abolição é uma meta, um ideal a ser alcançado e
um critério para criticar o afastamento de uma determinada sociedade real em relação a uma
sociedade justa com os animais. A abolição, neste sentido de idéia reguladora, não precisa ser
entendida como uma idéia utópica. Pelo contrário, se espera atingir esse ideal o quanto antes
possível. Mas se não for possível hoje, amanhã, na semana seguinte ou no mês que vem, então
deixemos as gaiolas maiores, mais limpas e mais confortáveis agora. Preferir deixar as gaiolas
mais sujas e menores é negociar com a condição miserável de vida dos animais em cativeiro, e
isso é eticamente inadmissível.
A partir do que foi dito, Sztybel sugere o que seria o princípio moral do Abolicionismo
Pragmático: "Devemos produzir o que é melhor para os seres sencientes em todos os
momentos". Podemos traduzir essa regra por
"Devemos fazer o melhor para todos os animais (animais como grupo escravizado) e para
cada um deles (como criatura escravizada) tanto a curto-prazo quanto a longo-prazo".
A partir de 2010, será ilegal o uso de baterias de gaiolas para galinhas em toda a União
Européia. Um abolicionista fundamentalista diria que essa lei não fornece liberdade às aves, e
elas têm direito a isso. Um abolicionista pragmático diria que, se o melhor para as galinhas
agora são gaiolas maiores, então é melhor para as próprias galinhas que se acabe com as
gaiolas agora. O melhor para elas não é uma gaiola apertada.

13. O alvo da defesa animal deve ser o próprio indivíduo animal: o princípio abstrato
chamado "direito" é apenas um meio para isso

Abolicionistas correm o risco de pensar o Direito Animal como coisa abstrata e pertinente a
animais abstratos – em vez de algo a ser materializado no animal concreto e real, que, neste
instante, ocupa alguma gaiola, em algum criadouro, em algum lugar do mundo. Direitos, embora
constituam um ideal moral, não são os fins da ação ativista. Direitos são apenas meios. Os
animais são fins em si mesmos.
Não há nada de valor na abolição a não ser pelo fato de fazer um bem para os seres libertados.
O alvo da ação moral deve ser o próprio indivíduo animal, não algum princípio. A obsessão do
ativista por agir pelos direitos dos animais, fazendo da idéia da abolição quase um fetiche, é um
outro modo sutil de antropocentrismo conceitual. Em termos estratégicos, isso distrai o ativista
do foco pragmático sobre o que realmente é importante. Neste ponto, um abolicionista
fundamentalista irá protestar: o melhor para um animal é ter direitos para não ser escravizado
pelo especismo. Isso é verdade, em se tratando de uma verdade atemporal. Um abolicionista
pragmático irá concordar em fazer valer direitos o mais cedo possível. O erro de Francione é não
distinguir o melhor imaginável ou concebível do melhor realmente possível. A abolição não é o
melhor que pode ser implementado em favor dos animais a um curto-prazo, simplesmente
porque isso não é nem mesmo uma opção neste momento. O melhor para os animais, no nosso
mundo do aqui e agora, tampouco é advogar um direito de ter direitos e nada resultar alterado
da legislação atual.

14. Francione não leva em conta o direito dos animais ao bem-estar
Em Rain without Thunder, Francione escreve: "o direito básico de não ser tratado como
propriedade é um direito que não admite e não pode admitir graus".8 A abordagem pragmática
aqui exposta não vai compartilhar com essa lógica do "tudo ou nada", mesmo adotando o
vocabulário dos direitos. Para tanto, só é necessário que admitamos que o direito básico de não
ser considerado propriedade inclua uma série de direitos subsidiários, tais como o direito de
liberdade de movimento. Ora, o status de propriedade dos animais não seria reduzido em um
grau se garantíssemos apenas um único interesse animal, por exemplo, por meio de uma lei
(bem-estarista) que garantisse o direito deles em se mover livremente? Essa abolição parcial, ou
esse direito parcial, faria um mal para os animais criados livremente? Não, faria um bem.
De fato, essa idéia já se encontra no livro Beyond Prejudice, da filósofa norte-americana Everlyn
Pluhar9: os animais têm direito ao bem-estar físico e mental. Nessa perspectiva, por que uma lei
que proíba a criação industrial de porcos deve ser interpretada como uma lei tipicamente bemestarista?
Por que não podemos interpretar essa lei como aquela que institui o direito dos porcos
ao bem-estar e o direito dos porcos ao livre movimento nas fazendas de criação? Afinal, o direito
a não ser tratado como propriedade é apenas um dos possíveis direitos que um sujeito pode
portar. Uma lei bem-estarista que estipule uma gaiola para galinhas poedeiras com um mínimo
de Xm² pode ser interpretada como postulando o direito da galinha a viver num espaço não
inferior a Xm². Em outras palavras, não há nada no direito ao bem-estar e no direito a não ser
propriedade que os obriguem a serem rivais no sentido lógico, normativo ou legislativo. O status
de propriedade que o animal detém não o impede de ter vários direitos, inclusive um direito ao
bem-estar. Além do mais, isso teria um alto valor tático e estratégico, na medida em que o bem
da propriedade é exatamente aquilo que interessa ao seu proprietário.

15. A noção de direito não é necessária para a defesa animal
Algumas pessoas, especialmente aquelas que não têm formação filosófica ou as que estão se
iniciando agora neste debate, esquecem que a defesa animal e a Ética Animal não precisam
necessariamente apelar para o discurso do Direito dos Animais, tampouco para a terminologia
que a ciência jurídica adota. Aliás, a retórica ou o discurso dos direitos, tal como o conhecemos,
é uma invenção moderna, uma invenção do século XVIII. Trata-se, pois, de algo muito recente
da história do pensamento moral e uma criação essencialmente humanista. Pergunta-se: não
era possível defender os animais antes do século XVIII por não existir ainda a linguagem dos
direitos? É claro que era.
Outro erro muito comum entre os ativistas é tentar procurar (e encontrar) o conceito de direitos,
como se usa hoje, antes da época moderna, por exemplo, na filosofia de Pitágoras e nas
religiões orientais antigas. Já foram articuladas defesas dos animais bem consistentes através
dos conceitos de compaixão ativa (da ética budista), de ahimsa ou não-violência (da ética
jainista) e de anticrueldade (da ética pitagórica). Tais conceitos, evidentemente, servem de
inspiração para o discurso contemporâneo de defesa animal, mas seria um grande equívoco
buscar a idéia de Direito dos Animais em um texto anterior ao Iluminismo. De qualquer modo,
uma significativa parte dos grandes pensadores que defenderam os animais ao longo da história
humana o fez sem utilizar o conceito de direitos, e nem por isso apresentaram defesas fracas,
incompletas ou inarticuladas; muito pelo contrário.
De outra parte, por que supor que apenas leis que contenham a noção de direitos podem levar a
uma ampla regulamentação abolicionista? A sociedade, convencida do Bem-Estar Animal, pode,
sim, criar leis abolicionistas. Tudo que é necessário para um sociedade abolicionista é um apoio
democrático para isso, ou seja, que seus representantes criem tais leis. Qualquer mudança legal
depende apenas de uma motivação pública – e, infelizmente, o povo em massa não está lendo,
nem parece que pretende ler, Gary Francione ou Tom Regan.
De fato, é muito mais provável que essa motivação pública pró-abolicionista possa ser
alcançada por meio do cultivo de uma cultura compassiva ou um sentimento de amor pelos
animais, veiculada por um sistema global de educacional humanitária. Não é por acaso que os
encontros abolicionistas e congressos veganos freqüentemente lançam mão de filmes com
imagens de atrocidades, apelando exatamente para a compaixão humana. Isso parece ser mais
eficiente do que palestras de teoria ética. Lembremos que a abolição do uso de animais em
circos nos seis estados e nos cinqüenta municípios brasileiros ocorreu por razões bemestaristas,
devido à crueldade envolvida, e não por apelo ao direito dos animais em não serem
instrumentos para a diversão humana. Somente quando alcançarmos um consenso público
contra o especismo, do qual ainda estamos muito longe, aí, sim, será a hora apropriada para
falar do direito do animal de não ser propriedade humana.

16. As críticas do professor de Direito Animal Steven Wise às idéias de Gary Francione
Steven Wise, no artigo Thunder without Rain:
a review/commentary of Gary L. Francione’s Rain
without Thunder10, critica a posição de Francione em vários pontos, dentre esses, destaco os
seguintes:
(I) Foi dito antes que Francione apenas copiou e reuniu conceitos morais que já estavam em
Peter Singer e Tom Regan. E quanto à sua contribuição legal? Wise comenta: "Francione não
apresenta quase nenhum argumento sobre direitos legais para fundamentar a mudança que ele
propõe na classificação legal [dos animais] de coisas para pessoas. Em vez disso, ele assume
que seus argumentos a favor dos direitos morais dos animais não-humanos se aplicam também
aos seus direitos legais. Mas, como o filósofo americano Tom Regan observou, os argumentos
contra e a favor da personalidade moral e da personalidade legal dos animais não-humanos
podem ser irrelevantes uns para os outros".11 Além disso, Francione não explica quais espécies
de animais deveriam receber esses direitos e quais direitos legais eles deveriam receber. Wise
lembra que os juízes decidirão mudar o status legal de coisas que os animais possuem hoje
somente quando forem persuadidos por argumentos legais. Mas até agora os juízes americanos
não têm sido influenciados nem pela obra de Peter Singer nem pela de Tom Regan. Numa
pesquisa na jurisprudência americana feita em 1997, Wise constatou que nenhum juiz citou nem
Regan nem Singer em alguma de suas sentenças.
(II) Wise se refere também a um problema que eu mesmo já tratei pormenorizadamente em outro
artigo 12 . Esse problema atinge também outros eticistas animalistas. Tanto Regan quanto
Francione falam de direitos dos animais quando, de fato, não é de todos os animais que eles
estão falando. Ambos defendem direitos morais e legais apenas para uma parcela mínima do
Reino Animalia. Se Francione adotar o conceito de "sujeito-de-uma-vida" de Regan, estaremos
falando de mamíferos, aqueles que supostamente têm desejos, percepções, memória, sentido
de futuro e identidade psicológica ao longo do tempo. Isso limitaria direitos morais e legais a
apenas 0,3% de todos os animais do planeta. Mas se Francione estiver pensando em seres
sencientes, então ele está propondo direitos morais e legais para apenas 2% dos animais do
mundo, que são justamente os vertebrados. Por fim, se Francione estiver pensando que a
senciência é importante como um meio para permanecer vivo, como ele afirma, então ele
deveria atribuir direitos morais e legais a qualquer ser vivo, e não apenas aos animais, já que,
em última instância, estaríamos tratando do valor da vida, em vez do valor da senciência.
Wise observa que propor direitos legais para todos os animais, como a Biologia os define, seria
uma dificuldade enorme, para não dizer uma impossibilidade jurídica. Mas se a Ética Animal
deve atribuir direitos tanto a chipanzés quanto a mosquitos, é provável que a nenhum animal
seja atribuído direitos legais nos nossos tribunais.
(III) A maioria das pessoas engajadas na causa animal não são filósofas ou advogadas para lidar
logicamente tão bem com um conceito sofisticado como o de direitos. De fato, a noção de
direitos a ter direitos, ou de ter um direito a não ser propriedade de outrem, é muita mais
complicada para o entendimento da média da população do que a idéia de que o sofrimento
animal é um mal. Ademais, o conceito de direitos já está bastante desgastado no discurso
público sobre direitos humanos. Não é surpreendente que haja uma grande confusão dentro do
movimento animalista quanto à qualificação dos direitos dos animais. Segundo Wise, Francione
apenas tem ajudado a aumentar tal confusão.
(IV) Não se pode atribuir direitos legais aos animais que ainda não existem. Os únicos potenciais
portadores de direitos legais a serem considerados por nós são aqueles que estão vivos neste
momento. Portanto, é irrelevante se reformas legais bem-estaristas irão reforçar, ou não, o
status de propriedade dos animais no futuro ou se beneficiarão os exploradores dos animais no
futuro. Wise pergunta: "Quem melhor respeita os direitos morais das vacas que vivem e que têm
sede hoje, o Novo Bem-Estarismo ou Francione? Quem está mais disposto a sacrificar os atuais
interesses das vacas que vivem e que têm sede hoje na esperança de que os direitos legais de
outros animais não-humanos sejam reconhecidos em algum momento no futuro, Francione ou
os Novos Bem-Estaristas?" 13 Francione, incoerentemente, não aplica seu próprio princípio
moral: ele descuida dos portadores de direitos de hoje pensando nos portadores de direitos de
amanhã.
(V) Wise também lembra que a maioria de nós carece de visão, conhecimento e experiência para
entender como nossas decisões de hoje afetarão o destino dos animais no próximo ano, na
próxima década ou no próximo século. Não há estudo, experiência ou talento que garanta a
alguém a capacidade de identificar qual a estratégia necessária para implementar um programa
de reforma legal de longo prazo. Nem reconhecer uma tática ou estratégia vencedora ao vermos
uma. Além disso, estamos agindo em nome de outros que não podem se comunicar conosco e
nos informar sobre os seus interesses. Wise acredita que o Bem-Estarismo de hoje pode
pavimentar o caminho para a abolição de amanhã, mas também pode enfraquecer essa base.
Reformas bem-estaristas podem ou não aumentar o poder dos exploradores. Podem ou não
prolongar a prática da pecuária. É claro que o Bem-Estarismo, como Francione observa, ratifica
o status de propriedade dos animais. Wise concorda que esse é um problema estrutural dessa
corrente. Mas isso não significa que o Bem-Estarismo seja estruturalmente defeituoso, como
Francione pensa, porque confirmar tal status não é o único resultado positivo alcançado pelas
reformas bem-estaristas.
(VI) Wise, todavia, não afirma que Francione está errado em termos estratégicos. Pode ser que a
abolição da pecuária ocorra mais rapidamente se os animais de criação sofrerem mais. A
questão é: devemos buscar uma legislação que aumente o sofrimento dos animais a fim de
acelerar a data da abolição animal? É claro que não. Segundo Wise, é um absurdo caracterizar
uma legislação bem-estarista como uma violação dos direitos dos animais: "Imagine que eu
esteja escravizado e, como conseqüência disso, sofra privações terríveis, incluindo fome e sede.
Suponha também que Novos Bem-Estaristas Humanitários tentem introduzir uma legislação que
obrigue que eu receba comida e água adequadas. Eu objetaria isso com base em que essa
legislação viola meus direitos? Eu rezaria por essa mudança!".
(VII) Os abolicionistas imediatistas ou fundamentalistas acreditam que não se deve negociar com
a injustiça e com o mal. Mas, conforme Wise, se quisermos nos tornar a força principal na luta
pela abolição do status de coisa dos animais, nós seremos obrigados a nos envolver ou nos
comprometer com o mal – especialmente os advogados. Diz ele: "Até que um sistema injusto
seja alterado, nós, advogados, devemos trabalhar dentro dele ou, então, não trabalhar".

17. As críticas do filósofo da Ação Direta Steve Best às idéias de Gary Francione
A posição de Francione não é apenas criticada pelo seu colega do Direito, mas também pela
corrente da Ação Direta. Steve Best é considerado um porta-voz filosófico não-oficial do já
famoso Animal Liberation Front. Aliás, em virtude de suas declarações de apoio às ações
realizadas em nome dessa organização, sua presença foi banida do Reino Unido.
Steve Best observa que Francione propõe justamente aquilo que critica no Bem-Estarismo, a
saber, uma cumplicidade com o próprio sistema que está combatendo. Em outras palavras,
Francione quer eliminar a injustiça contra os animais, mas sem alterar o sistema legislativo,
sistema este que é marcadamente especista no seu essencial. Francione, a despeito do aspecto
revolucionário do seu pensamento, ainda se move dentro dessa rede política e socialmente
dominante, contra a qual a filosofia da Ação Direta dedica suas forças.
No ponto de vista de Best, segundo uma entrevista concedida à revista Vegan Voice, Gary
Francione exagera na sua abordagem:
"Não é de modo algum errado ou uma traição ao abolicionismo procurar um alívio imediato ao
sofrimento dos animais de fazenda ou de laboratório, especialmente quando esse sofrimento é
tão terrível e a abolição é uma possibilidade tão distante. O problema não são as reformas em si
mesmas, mas, sim, reformas separadas do objetivo mais amplo da abolição. (…) O PETA, por
exemplo, travou uma longa campanha contra as cadeias de fast-food para forçá-las a pressionar
seus fornecedores a melhorar as condições dos animais de fazenda. Essa é uma medida
reformista. Mas, veja bem, eles também vão à raiz do problema ao promover o veganismo e a
educação humanitária, e eles avançam enfaticamente a mensagem abolicionista de que "os
animais não são nossos para comer, vestir, experimentar ou nos divertir". Portanto, eu penso
que a crítica de Francione ao PETA erra o alvo e que algumas vezes ele constrói uma falsa
dicotomia entre reforma e abolição, ou não vê o quão fina essa linha divisória pode ser.
Considere o sucesso da campanha de 2002 para banir as gaiolas de gestação de porcas na
Flórida: de um lado, foi um esforço abolicionista para acabar com uma prática especifica, o uso
de gaiolas de gestação; por outro, entretanto, foi reformista, já que não contestou a criação
industrial de animais como um todo."
Best também discorreu sobre o abate humanitário bem-estarista. Ele observa que, sendo uma
educação vegana e outros projetos educacionais processos demorados, e que a cada ano mais,
e não menos, animais são mortos para comida, então, "se deveria ser favorável ao abate
humanitário como um objetivo imediato e de curto-prazo. A situação é tão horrível que alguma
coisa precisa ser feita agora mesmo, e não daqui a um ano, uma década ou um século". Veja
que quem está dizendo isso não é nenhum partidário acomodado do bem-estarismo: essas
palavras são de um abolicionista militante da Ação Direta, defensor do ALF, a ponto de ser
considerada uma pessoa perigosa pelo governo inglês.

18. Considerações finais
O risco da proposta abolicionista dentro de uma sociedade fortemente especista como a nossa é
o de, exigindo a erradicação total do uso dos animais, não obtermos nem mesmo o que é o
melhor possível para eles, neste momento, em termos legais. Reclamando a abolição completa,
podemos nem mesmo obter a proibição legal no que tange a dor e ao sofrimento mais brutais.
Freqüentemente pedindo o máximo, conseguimos menos que o mínimo. Se o que foi dito antes
é correto, então o projeto de Francione pode, paradoxalmente, tornar as coisas piores para os
animais.
Permanece também o risco de uma organização ativista adotar a concepção de Francione como
um mantra e, hipnotizada por ela, ficar fora do jogo político, investindo a maior parte da sua
energia em sabotar qualquer lei de redução do mal-estar animal. Francione parece se dedicar
mais ao isolamento e à alienação daqueles que tentam melhorar o destino dos animais do que
trabalhar de modo cooperativo visando objetivos comuns. Em vez de confrontar os opressores
especistas, ele ataca seus supostos aliados, como Peter Singer e Tom Regan, que, como ele,
dedicam todo seu esforço intelectual em prol dos animais. Singer e Regan podem ter visões
diferentes a respeito de aonde chegar e como chegar, mas, sem dúvida, eles estão do mesmo
lado da luta contra a indiferença. Francione, em vez de trabalhar solidariamente pelo progresso
moral da sociedade, investe mais energia na sugestão de que bem-estaristas não são melhores
que aquelas pessoas que escravizam os animais.
Se a maioria da sociedade e dos legisladores ainda não reconhece nem mesmo uma Ética do
Bem-Estar, o que se dirá, então, do direito de um animal de não usado por nós. A mensagem de
Francione faria sentido se uma grande parcela da sociedade já desejasse fazer o melhor para os
animais, o que, infelizmente, não é o caso. A imensa maioria da nossa população, algo talvez
em torno de 98% dela, ainda come animais. Uma sociedade, estando tão longe assim de ver a
gravidade da morte e do sofrimento animal, está a anos-luz de atribuir a galinhas poedeiras o
direito de não serem tratadas como propriedade humana nas granjas. Está a anos-luz de
conceder uma personalidade legal aos porcos nos chiqueiros. Essa parcela da população
egocêntrica não está nem mesmo pronta para Peter Singer – e está muito menos pronta ainda
para Gary Francione.
O que Francione está propondo é certo, mas no momento errado da história. É claro que
pensadores a frente do seu tempo têm um papel vital em qualquer movimento ativista. Os
visionários apresentam alvos a serem atingidos. O problema com o projeto de Francione não é o
ideal moral que ele nos convida a perseguir. Seu problema é o de estratégia. O de como chegar
lá. O sonho da abolição não deve cegar nossos olhos quanto ao que é o melhor (ou o menos
pior) para os animais neste instante da nossa civilização.
Todos nós, animalistas, queremos a mesma coisa: acelerar a erradicação da opressão;
maximizar a libertação total dos sencientes. Mas não parece correto olhar para os bilhões de
animais em estado de miséria deplorável neste momento e pensar que, antes de fazer alguma
coisa, deveremos perguntar: "Que bem minha ajuda a vocês fará para a causa abolicionista?".
Não parece correto esquecer as vítimas do martírio animal atual, abandonando-as à sua própria
sorte, a menos que tenhamos certeza que nossa ajuda promoverá a abolição.

_____________________________________________________________________________________________________________________________

  

* Carlos M. Naconecy é filósofo pela UFRGS e doutor em Filosofia pela PUCRS/Universidade de Cambridge(UK),
onde foi pesquisador visitante no Animal Welfare and Human-Animal Interactions Group. É membro do Oxford Centre for Animal Ethics e do corpo editorial do Journal of Animal Ethics. É autor do livro Ética & Animais, edipucrs, 2006

Categorias:Uncategorized