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Sobre o Natal

 

A ntes de mais nada, devo confessar que sou agnóstica. Todo final de ano a festa-natal serve (como qualquer festa) para congregar pessoas em torno de alguma coisa que, neste caso, muitos nem sabem direito o que é. Mas as cidades ficam no geral mais bonitas, enfeitadas. E todos lembram da árvore, do papai noel e dos presentes, é claro.  Sobre isso, o ótimo Rafael Bán Jacobsen tem um texto muito legal que merece ser compartilhado. Vejam:

Instruções para Celebrar um Bom Natal, por Rafael Bán Jacobsen

Instrução 1: Resgatar as origens da celebração

Para celebrar um bom Natal, você, muito consciente, decide saber mais sobre as origens da festa, transcendendo a atmosfera moderna da comemoração, superpovoada de Papais Noéis, renas de fibra de vidro e impiedosa música ambiente.

Você abre a enciclopédia e, atônito, lê o seguinte trecho:

Segundo estudos, a data de 25 de dezembro não é a data real do nascimento de Jesus. A Igreja entendeu que devia cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam por altura do solstício de Inverno.

Portanto, segundo certos eruditos, o dia 25 de dezembro foi adotado para que a data coincidisse com a festividade romana dedicada ao “nascimento do deus sol invencível” (Natalis Invicti Solis), que comemorava o solstício do Inverno. No mundo romano, a Saturnália, festividade em honra ao deus Saturno, era comemorada de 17 a 22 de dezembro; era um período de alegria e troca de presentes. O dia 25 de dezembro era tido também como o do nascimento do misterioso deus persa Mitra.

Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, a Igreja forneceu-lhes um novo significado e uma linguagem cristã.

Com a mente em rodopios, você larga o velho volume empoeirado, enquanto uma imagem de aterradora nitidez se desenha diante de você: no lugar da sala repleta de parentes chatos, enfim obrigados a se reunir pela contingência social, no lugar do primo que, meio embriagado, distribui insistentes e inconvenientes tapinhas nas costas, no lugar da sogra obesa que, atolada na poltrona, exala impropérios e perfume forte, no lugar das crianças, que enchem o ambiente de gritos e, nas suas estripulias, quebram louças e ameaçam a integridade do pinheirinho comprado na promoção do hipermercado, você vislumbra uma comemoração diferente, única, um delírio pagão e orgiástico, no bom e velho estilo romano: mulheres e homens nus, com os corpos besuntados de óleos afrodisíacos, possuem uns aos outros sem lógica alguma e se entregam ao frenesi da carne, entre taças e mais taças de vinho que apenas acentuam o delírio grupal. E você está no meio, dividindo o corpo sinuoso da sua secretária com o porteiro do prédio enquanto duas louras desconhecidas cercam o trio, emitindo gritinhos de gatas no cio. Adiante, sua esposa se entrega de um modo selvagem ao seu melhor amigo, e, estranhamente, você não se importa nem um pouco. Também não mexe em nada com seu orgulho ver, sobre a mesa da cozinha, a sua filha, quinze aninhos, saciar, com desenvoltura de cortesã, a libido de três rapazes (aqueles maconheiros, traficantezinhos de araque da rua). Você apenas sorri. Louvado seja Mitra!

Súbito, um grito o desperta e traz de volta à realidade: é a sua esposa, que, lá da cozinha, avisa que está na hora de ir às compras de Natal. E está confirmado: a família dela vem passar a noite com vocês.

Instrução 2: Presentear

Seja qual for a origem da festa, a troca de presentes é parte essencial, simbólica.

Você poderia preparar um presente com as próprias mãos, algo artesanal, feito com carinho. Mas você não tem tempo e nem habilidades para isso. O que resta? A terra prometida: o shopping center. A exemplo de todos, você deve iniciar sua peregrinação a esta Meca globalizada e onipresente, que, ao contrário da original, exige visitas constantes, e não apenas uma vez na vida. Na época do Natal, a romaria é obrigatória.

É o presente do amigo secreto, da mãe, do pai, das crianças (incontáveis crianças). E, em meio ao empurra-empurra, entra e sai das lojas, mais e mais sacolas vão ocupando os braços, já cansados com a correria. No seu íntimo, você se questiona acerca do porquê de estar naquele lugar tomado de gente desvairada. Seu inconsciente, sacana, não lhe dá resposta alguma, mas ela já não mais interessa: você tem de estar ali porque todos estão ali.

Terminada a batalha, você chega em casa com o porta-malas abarrotado de pacotes de todas as cores e tamanhos. Ainda na garagem, você imagina o que cada um vai dizer ao receber o seu: “Ah, não precisava.”

A seguir, imagina o que eles diriam se não recebessem nada.

Instrução 3: Preparar uma típica ceia natalina em família

Antes de iniciar os preparativos para a refeição festiva, observe o presépio que as crianças montaram na sala: tem vaca, cabrito, cordeirinho – todos observando o Jesus recém-nascido.

Agora pense na maneira como os Reis Magos celebraram a chegada de Jesus. Seus presentes foram ouro, incenso e mirra. Em nenhum momento, os magos, José ou Maria sugeriram assar um peru ou um pernil para comemorar.

A seguir, você recorda aquele documentário da TV a cabo sobre a vida de Jesus, que apontava evidências de que ele absorvera boa parte de sua filosofia de não-violência, idealismo ético, pureza espiritual, abominação à propriedade privada e coletivismo dos essênios, um grupo ou seita judaica ascética que teve existência desde mais ou menos o ano 150 a.C. até o ano 70 d.C. Entre os ensinamentos essênios, estava a prática do vegetarianismo.

Você então se dá conta de que, infelizmente, o sentido essencial desta data, o Natal, que deveria se prestar a uma reflexão coletiva sobre o modo como vivemos, perdeu-se por completo. E nada está mais distante do mais puro e cristalino sentimento cristão do que os cardápios natalinos. É verdade, você constata: as pessoas se esquecem de que os primeiros adoradores de Jesus foram justamente os animais e aquiescem na matança desenfreada que ocorre nesta época do ano. Quintuplica-se o abate de perus e outras aves; porcos, cabritos e carneiros também são mortos em proporções absurdas. As pessoas desejam paz em suas mensagens natalinas, mas enchem suas mesas com os cadáveres de criaturas inocentes. Ignoram os imensos danos que a indústria da carne acarreta ao meio ambiente e permanecem surdas ao argumento de que a carne em suas mesas significa a fome de milhões de pessoas (50% dos grãos produzidos no mundo destinam-se ao fabrico de ração para os animais de engorda; se esses mesmos grãos fossem utilizados diretamente na alimentação humana, que notáveis efeitos não teríamos!). Ironicamente, as pessoas pedem saúde no novo ano, enquanto se esbaldam em gordura animal. Aos poucos, esta entupirá suas veias e artérias, detonará seus fígados e afetará profundamente o equilíbrio de seus corpos e mentes.

Você então se lembra do peru que está descongelando na pia e sente uma pontada no coração.

Instrução 4: Praticar a legítima caridade cristã

O Natal desperta sentimentos de bondade e anseios de auxílio mútuo em todos nós. O delírio coletivo nos leva de arrasto. É quase um dever corresponder a essa pulsão.

Pegue o seu carro e vá ao asilo ou orfanato mais próximo. É bem provável que, logo na entrada, o aniversariante em pessoa esteja lá para recebê-lo: Jesus, ensangüentado e cabisbaixo em sua cruz. A despeito de suas nobres intenções, ele não parece muito feliz ao vê-lo; na verdade, nem parece ter notado sua presença.

Faz tempo que você não vai até lá, cerca de um ano, mas faça o possível para se sentir à vontade apesar da pouca luz e do cheiro de mofo e água sanitária.

A senhora de andar lento que está na portaria agradece os pacotes de alimentos não-perecíveis (sim, você se lembrou de que sal não serve), as roupas “quase novas que já não servem mais no povo lá de casa” e as cédulas amassadas que você estende para ela. Você está prestes a murmurar um “feliz Natal”, girar sobre os calcanhares e ir para o carro com o espírito tranqüilo quando ela pronuncia as temidas palavras: “Você não gostaria de conhecer a nossa instituição?”

Não há como negar. Se conseguir que elas parem de brigar para ver quem vai subir na sua garupa, abrace uma ou duas das crianças ranhentas, ou então receba os beijos guardados de bocas murchas, senis e sem dentes depois de ouvi-las contar causos “da época do Geisel”.

Volte para casa rápido. Talvez demore para você recuperar o sorriso milimétrico e esperado na hora da ceia.

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Rafael Bán Jacobsen é físico, professor, escritor, poeta e músico, além de atuante defensor dos direitos animais. Nasceu em Porto Alegre, no dia 21 de maio de 1981. Vegetariano ativista, é fundador e atual coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) em Porto Alegre, proferindo palestras sobre o tema em encontros nacionais (site www.svbpoa.org).

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